<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763</id><updated>2011-07-28T14:30:16.604-03:00</updated><title type='text'>_mnemomáquina_</title><subtitle type='html'>Sâo Paulo, 2055. Another year for me and you. O planeta não é mais o mesmo; as pessoas nunca são elas mesmas - nem mesmo no mesmo dia. O futuro chegou e aquele mundinho confortável já era. Ainda assim, é favorável atravessar a Grande Água. Isto não é uma profecia: é um romance em construção.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>13</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-116075927573247982</id><published>2006-10-13T14:06:00.000-03:00</published><updated>2006-10-13T14:09:31.663-03:00</updated><title type='text'>0 : São Paulo, 2027</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i style=""&gt;Monólogo &lt;st1:personname productid="em I ato. Cen￡rio" st="on"&gt;em I ato. Cenário&lt;/st1:personname&gt;: monitores de TV fora do ar. No centro deles, o personagem IRINEU, de pé em um cubo de vidro transparente e iluminado. Ouve-se o som de helicópteros, tempestades e white noise. À medida em que IRINEU fala, o cubo vai sendo preenchido de água – até a boca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;span style=";font-family:georgia;font-size:100%;"  &gt;Fodeu. Você veio entrevistar um ex-Big Brother&lt;a style="" href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; e agora vai ter que ouvir tudo. Estou praticamente me transformando em um peixe abissal! Bem, tudo começou quando eu caí no Buraco Quente... Olha. Calma. Eu explico. Marluce, a água está subindo! O Plano B! Essa chuva do inferno... vem cá, você não deveria estar lá embaixo, cobrindo as enchentes pra tua emissora? Hã? Não é pra isso que você deveria estar apontando tua lente chupadora? Ah, não cobre Cotidiano? Pano bacana, coisa fina isso que cê veste, te pagam bem na Globo? Tá, eu respondo... a HISTÓRIA, não é? Não é o que vocês jornalistas procuram? Em linha reta? Sei, já trabalhei com isso... Quer dizer, no tempo em que eu era um ex-Big Brother cheguei a ser cotado para apresentar telejornal. Eu seria o Garoto do Tempo! Tinha até passado no teste, mas não fui pra frente porque o diretor de jornalismo disse que eu “não passava credibilidade” para “anunciar tempestades”. Porra, como é que um ex-Big Brother não poderia passar credibilidade? Hein? Eu vos anuncio: EIS O DILÚVIO... Acredita? Se sempre morei aqui? Não, morava do outro lado da 23 de Maio, um pouco depois dessa avenida aí embaixo – as Águas Espraiadas. Pra lá, ó, ali a enchente já cercou o bairro, inundou a Interlagos e a Cupecê. E daqui a pouco tudo vai virar um baita Tietê: olhaí, a água, já batendo o sétimo andar. Não, nunca gostei do nome que a Marta Suplicy, que foi prefeita &lt;st1:personname productid="de S￣o Paulo" st="on"&gt;de  São &lt;st1:personname st="on"&gt;Paulo&lt;/st1:personname&gt;&lt;/st1:personname&gt; no início do século – lembra dela? –, colocou nessa avenida: pra mim, vai ser sempre Águas Espraiadas. OLHA. Preciso te falar! Minha vida dava um filme... A vida de todos os idiotas dá um filme, cheio de água, pais, filhos, olhos e jornais embrulhando peixes secos... Eu nasci perto de uma favela, o Buraco Quente, num sobrado geminado com uma árvore enforcada no quintal e um videogame sempre ligado e vizinhos em quem dava porradas... Outro idiota da Zona Sul. Tinha uns dezessete quando comecei a cair na favela pra comprar fumo... Na mesma época, descobri que meu pai me sapeava quando eu transava com minha namorada, no quarto. Ó, você tem namorada? Como é que você trepa com...? Quando você transa com ela, não tem a sensação de que alguém...? Não ouve, “ó, &lt;st1:personname st="on"&gt;Jú&lt;/st1:personname&gt;nior, tamos de olho, manda bala, meu velho”? Como quando o padre me dizia no catecismo, “Deus que tudo vê”... Eu sentia o mesmo, só não sabia que, na verdade... – o puto do meu pai, aquele punheteiro, socando uma atrás da fechadura enquanto eu amordaçava a menina pra que não gritasse... Você não acha que as mulheres gostam de gritar quando estão gozando pra que TODOS saibam? Hein? Você só pode estar brincando. A sua namorada deve fingir que não goza só pra te falar que... Marluce! O quê... Hein, como eu descobri que ele...? Sempre tem um filho da puta espiando outro. Olha aqui, garoto do microfone, você deve saber que isso me fez um EXPERT &lt;st1:personname productid="em fingimento! Eu" st="on"&gt;em fingimento! Eu&lt;/st1:personname&gt; habitei aquela &lt;st1:personname productid="Casa com aqueles" st="on"&gt;Casa com  aqueles&lt;/st1:personname&gt; outros animais, articulei tramóias para virar líder, me fiz de bonzinho quando devia, de mau quando achei que o público ia gostar, fui o primeiro a foder uma colega de Casa ao vivo em cadeia nacional... tava dando tudo certo até que perdi a bolada no final para aquela suburbana paranóica, só porque eu não tinha cara de POBRE. Naquela época, cê não lembra, nem era nascido, era o começo do século 21, estava na moda ser pobre, parecer tosco, falar errado... Sabe o que é HYPE? Não? Era uma palavra que se usava muito... era hype ser povão, fingir que tinha samba no pé, escutar rap... Ah, é, outro dia teve um revival... Ó, me desculpe, não me olha com essa cara, hoje em dia não cai bem essas expressões em inglês. É assim que eu aprendi e foda-se. Olha: nunca fiz faculdade, mas sabia que o que não era hype era ser preto e genial como meu mano Sabotage, que foi sabotado pelos tiras... E morreu, quatro tiros na cabeça, ali na Favela do Canão, ó, bem ali, daquele lado, ali onde você está vendo a última antena de TV, mais uma favela que foi para o caralho... Marluce! Fui expulso do colégio porque os gambés me pegaram vendendo umas coisas no pátio... E sabe o que mais? Você pode pesquisar nos arquivos e descobrir. IRINEU DO BIG BROTHER ENCRENCADO COM A LEI... Quando revelei isso numa entrevista, meu Ibope subiu! Fiquei FAMOSO! Ibope? Ibope era um índice pra medir audiência... outra coisa que... Como medem audiência agora? Ah, é, esqueci – todos sabem o que todos vêem hoje... Chegamos lá, né? Todo mundo tendo acesso a todo mundo? Olha, garoto do microfone: NINGUÉM tem acesso a mim, tá me entendendo? Eu não sou isso. Ninguém vai saber o que eu penso quando estou na privada, meu último refúgio... MARLUCE! Quando eu estava na Casa, fazia discursos reclamando por me proibirem de levar livros... Me chamaram de “intelectual”... olha, reporterzinho: tem saída não, não adianta ir contra. Quando vendi minha imagem como “jovem ator rebelde saído do Big Brother”, eles já conheciam toda a minha história. Tinham me escolhido por causa disso mesmo. A minha... Doença... Acha que eu queria aparecer? EU QUERIA ME ESCONDER!, me esconder, só me esconder, só... Ó só, que beleza, daqui dá para ver tudo afundando... Marluce! Olha. Quando eu fui puxar cana, fiquei numa cela onde estavam uns integrantes daquela facção do crime, a Seita Satânica... eles desenhavam estrelas de cinco pontas debaixo da cama, em cada ponta um cigarro aceso, você via &lt;st1:personname productid="a cinza do cigarro" st="on"&gt;a  cinza do cigarro&lt;/st1:personname&gt; se acumulando reta, sem cair. Uns caras que não tomavam drogas – só gostavam de arrancar orelha, vazar o olho, tirar o nariz de um ladrão, beber um sanguinho de vez em quando, pra relaxar. Tem todo tipo na SS, de diretor de banco de investimento a ex-Big Brother – não é boa, essa? Heh. Sete anos de xadrez e aprendi &lt;st1:personname productid="a ficar com o" st="on"&gt;a ficar com o&lt;/st1:personname&gt; olho aberto sete dias seguidos, especialista em zoológico... Ser um Big Brother virou o sonho da minha vida. Eu só queria estar na Casa. Ser um deles. Deu certo: comprei essa cobertura com o dinheiro que juntei quando me convidavam pra animar bailes de debutante e lançamentos de churrascarias &lt;st1:personname productid="em cidades tipo Cuiab￡. E" st="on"&gt;em cidades tipo Cuiabá. E&lt;/st1:personname&gt; daí, sumi, me isolei com meus quadrinhos e a Bíblia, só investindo no Plano B – eu simplesmente não agüentava mais ver nenhum ser humano... Marluce, a água tá subindo! Esquece os baldes, meu amor, vamos ter que apelar pro... Minha filha não é um TESÃO? A mãe dela morreu – você deve ter pesquisado –, era a Marlene, a paranóica suburbana que ganhou &lt;st1:personname productid="o pr￪mio" st="on"&gt;o  prêmio&lt;/st1:personname&gt; de quinhentos mil reais – heh, lembra dessa moeda? Pois a minha jogada foi casar com ela... Hein? Se estou bem? Estou ótimo, apesar do botox que botei estar começando a vazar pro pâncreas, das pernas de silício instaladas darem uma rateada, das córneas de vinil que comprei a prestação, amanhecerem embaçadas, do meu coração de soja transplantado há dois anos ter taquicardia quando eu dou uminha... Pelo menos, minha prótese peniana de titânio funciona melhor do que minha pica na época em que eu comia a Marlene, veja lá o pôster, que gostosa que era... Eu estou ótimo! EU SOU O NOVO HOMEM... Olha, garoto do microfone, vou te falar uma coisa séria: isso aqui não existe, eu e você não existimos, a Marluce não existe. NÃO EXISTE NENHUM REALISMO, entendeu? Ninguém fala desse jeito que eu falo, é tudo inventado. Eu só era um babaca de classe média com uma dor vazia na consciência, que lia quadrinhos, ouvia Sepultura, andava de skate, lutava jiu jitsu e tinha que mostrar pro meu pai, entendeu?, que eu precisava pegar de volta o controle remoto... Olha a ÁGUA – que lindo, como sobe. Ih, aquele helicóptero ali se fodeu... Cara, espia o lugar onde cê trabalhava. E me diz se você não deu um puta rabo de vir pra minha cobertura fazer uma entrevistinha pro teu programelho sobre estrelas cadentes globais...? Desde &lt;st1:personname productid="O tempo" st="on"&gt;o tempo&lt;/st1:personname&gt; &lt;st1:personname productid="em que a Marta Suplicy" st="on"&gt;em que a Marta Suplicy&lt;/st1:personname&gt; batizou as Águas Espraiadas com o nome de &lt;st1:personname productid="Jornalista Roberto" st="on"&gt;Jornalista Roberto&lt;/st1:personname&gt; Marinho, tinha a intuição de que isso ia acontecer. Não dá para fugir, cara. As águas vão lavar tudo – as imagens, e todas essas palavras, essa falação estúpida... Por isso comprei essa cobertura perto da avenida: daqui posso olhar pro bairro onde cresci e assistir ele afundando... Posso ver submergir o Buraco Quente, aquela favela que o Maluf assassinou, quando asfaltou as Espraiadas por cem vezes o custo e enfiou tudo no bolso, mais a grana daqueles horrorosos Cingapuras, os pombais das Marginais... Quem se importa pronde foram aqueles pobres filhos da puta? Nunca foram hype nem trabalharam num filme fingindo ser traficantes. Você não conhece HISTÓRIA? Outro paulistano imbecil que... Parece que todos os jornalistas nasceram ontem. Cê tem que saber das coisas, cara! Ou você vê ou é visto. E aí saca que tudo não passa de uma triste orgia de macacos se masturbando uns pros outros – e só tenta se divertir fodendo os autistas... Olha que maravilha! &lt;st1:personname productid="A GLOBO" st="on"&gt;A GLOBO&lt;/st1:personname&gt; ESTÁ AFUNDANDO! Queria que os manos da SS vissem isso! Marluce, e o Plano B? Vamos lá, garoto do microfone... Não queria realismo? Então, ou fica aqui, e se afoga, ou vem pro barco comigo e com a minha filha... No barco vai um casal de cada animal... cê vai ver que reality show! Vamos embora para &lt;st1:personname productid="a terra do bom" st="on"&gt;a terra do bom&lt;/st1:personname&gt;, do justo e do sábio... e dos peixes abissais surdo-mudos... O que cê vai fazer? Vai ficar assistindo a tudo, pô... Você é o idiota que conta a história!&lt;/span&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div  style="text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;  &lt;hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px; height: 3px;font-size:78%;"  width="33%"&gt;  &lt;!--[endif]--&gt;  &lt;div style="font-style: italic;" id="ftn1"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a style="" href="#_ftnref1" name="_ftn1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Participante de um extinto programa televisivo, sucesso internacional nos anos 00. Criado por uma produtora holandesa, era levado ao ar no Brasil pela TV Globo. Consistia em confinar cerca de 20 pessoas numa casa monitorada por câmeras de TV. A vergonha alheia, a escassez de &lt;st1:personname productid="id￩ias e o" st="on"&gt;idéias e o&lt;/st1:personname&gt; excesso de exibição de carne nua eram atributos característicos do programa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-style: italic;"&gt;&lt;span style=";font-family:georgia;font-size:85%;"  &gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-116075927573247982?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/116075927573247982/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=116075927573247982&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/116075927573247982'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/116075927573247982'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/10/0-so-paulo-2027.html' title='0 : São Paulo, 2027'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-115401178721511686</id><published>2006-07-27T11:45:00.000-03:00</published><updated>2006-07-27T11:49:47.256-03:00</updated><title type='text'>12 : Dia dos Namorados</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Lost among the subway crowds&lt;br /&gt;I try to catch your eye&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Leonard Cohen, “Stories of the street”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;– Mas você nunca morou com ninguém?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Morar com alguém? Essa é boa. Não moro nem comigo mesmo...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ele não me dá a mínima. O máximo que me concede é sua companhia zanzando pelos escombros deste shopping que havia na Faria Lima, alguma coisa com nome indígena. Zed sopra que gosta de flanar por velhas vitrines.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Sentir vontade de ter coisas que não poderei jamais ter, Gas Gas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ele só me chama de Gas Gas. Jamais se lembra de que tive outros nomes. Jamais se lembra de que já entrou em mim quando eu era outras.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– A verdade é que nunca sinto vontade de ter nada – ele repete.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Eu já senti vontade de tê-lo. Durou umas horas, e meu nome não era Baby Gasoline. Era uma época em que usava a id Salvia Divinorum. Nos conhecemos numa feira. Na Feira da Benedito Calixto, quase na praia. Eu procurava fotos antigas de gente desconhecida para decorar minha sala, tinha pego um retrato de família e ele avisou: “Essa aí já tem dono”. Havia encomendado a foto ao dono do estande, me disse. Não quis me dizer se também colecionava imagens de anônimos, como eu, ou se de fato conhecia aquelas pessoas na foto. Falou o mesmo que agora:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Vontade de ter o que não poderia jamais, sabe.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas, agora, no deserto deste museu, não tenho mais como reengatar essa conversa – ele vai me achar doida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– &lt;em&gt;Se achasse que sou louco, trocaria meu nome&lt;/em&gt; – tinha cantado, bêbado, em uma ex-casa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Não vai acreditar que eu e Salvia somos uma, a mesma. Já tive uma enorme vontade de chegar nele e me declarar Salvia. Mas não posso. Não teria como provar – agora que perdi os royalties sobre minha id. Estou endividada até o pescoço com o Neverland Institute. Literalmente: devo 3 pescoços, meia dúzia de próteses faciais, umas cirurgias plásticas, centenas de tratamentos capilares, um crédito absurdo em fibras musculares de segunda linha e uns cinco ou seis dermoconstrutos. Não é fácil ser mulher hoje em dia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– O ar é baço, aqui... Não tem ao menos um café nesse antro?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Acho que na entrada. Olha essas roupas... – rio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Não dá pra acreditar que vestiam isso vinte anos atrás.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Esse texto sugere que as roupas de baixo eram para as consumidoras usarem no Dia dos Namorados... saca o que pode ser isso?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Parece que antigamente havia um dia do ano em que os namorados se davam presentes. Algo assim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– E o que eram namorados?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Suponho que fossem casais temporários, alguma espécie de relação afetiva. Acho que não era exatamente casamento... mas também não era o que se costumava dizer amizade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Você aprendeu isso na escola?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Não. Li uns dos Livros Proibidos...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Eu também! Mas não consigo lembrar disso...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Você não lembra nem de onde dormiu ontem!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Levei Zed para o cafofo de Salvia. Essa minha id, naquela época, trabalhava com eletroperversão histoimagética num edifício abandonado da Vila Madalena. Quando o rio subiu, em 2033, derrubou um monte de prédios. Alguns sobreviveram, como aquele da Fradique Coutinho. Cheguei antes de todo mundo, tomei um dos últimos andares para mim e morei lá dois anos, brincando de Salvia. O dinheiro com eletroperversão era bom: podia comprar várias ids. Consegui montar uma arapuca bacana pros caras legais que catava na feira. Mas tinha algo errado em Zed. Ele não parecia alguém recriado. Parecia que tinha caído do nada, nesta Cidade-Olho. Parecia mesmo alguém autêntico – embora negasse.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Você tem certeza de que as águas não sobem aqui?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Como posso ter certeza? O que sei é que a última vez em que esse shopping foi inundado tem uns dois, três anos, acho que foi 2053. Saca as marcas das paredes. Mas até que está bem conservado, né?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– É... olha essa loja de música... também tem um display falando de uma promoção para esse tal Dia dos Namorados. Será que foi nesse dia que rolou a Grande Enchente do Tietê?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Se eu tivesse um Jaeh, via agora. Mas detesto essas coisas que fazem a gente lembrar de tudo muito rápido... eu gosto de esquecer, sabe? Ficar com aquele frio na barriga que dá quando a gente não lembra...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Heheh... Sei.. Eu tenho a impressão de que tinha um Jaeh implantado, mas acho que precisei tirar... me dava coceira. Tenho umas alergias com biosilício, nunca descolei remédio pra isso...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tudo o que queria era segurar suas mãos, levá-lo para minha cama de novo, qualquer cama, deixar que me apertasse e me olhasse como se eu fosse única, como na noite em que o levei à casa de Salvia, única e ao mesmo tempo conectada a ele. Mas não sou mais Salvia – e ele nunca vai se apaixonar por mim. Apaixonar-se. Li isso nos Livros Proibidos. Tinha a ver com aquela instituição chamada casamento, considerada antieconômica pelo Estado de Transição [engraçada a expressão – faz uns 30 anos que o Estado é o mesmo...] e punida com a extradição pros Territórios dos Coisos. Por que Zed é o único cara de quem as mãos nunca me escapam, na memória da pele? Não costumo me lembrar dos caras com quem... Ele, pelo visto, também não. Mas se dissesse a ele que Baby Gasoline é Salvia Divinorum...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tudo o que eu queria era dar um soco na cara dele.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Você já teve alguém de quem gostasse muito?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Como assim, ter alguém? Um escravo, um robô, um Coiso?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Alguém com quem você tivesse... sabe...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Não sei, não me lembro... te falei, tenho uns problemas de memória.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Nunca pensou em ler as digitais ou a íris no Neverland?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Que digitais, que íris, Gas? Não tenho mais nada disso. Até minha arcada dentária é de pseudocálcio. Devo ter sido fuçado nalguma boca-de-porco na África, na Ásia, sei lá. Sinto que não é seguro acessar o Neverland. Não sei bem no que eu trabalhava, antes dos meus mnemoimplantes irem pro saco...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Chegamos no fim de outro corredor, descemos as escadas. O Museu do Consumo Conspícuo está às moscas a esta hora, cinco da tarde. Daqui a pouco vêm as chuvas de fim de dia. E as pessoas ficam tensas. Eu me garanto, na minha barca. E, de algum jeito que não sei por quê – confio em Zed.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Olha isso!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ao virarmos a esquina, depois de uma megaloja de moda, no chão à frente de uma delicatessen, o que parecia ser uma pessoa caída.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Pelas roupas, é um Coiso...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O peito estava aberto. Da mão direita pendia uma ferramenta estranha.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Talvez tivesse sido um Coiso tentando arrombar uma loja. Deve ter tomado um choque elétrico no peito, caiu e morreu aí mesmo. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Era uma mulher... com certeza era uma mulher, pela túnica.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Ela queria arrombar essa delicatessen aí na frente... Mas e se arriscou tanto assim só pra roubar uma cesta de chocolates podre, de vinte anos atrás?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Talvez quisesse dar de presente pra algum namorado – ironizo, sem deixar de me deter sobre os miasmas e humores que escapavam da carniça fedorenta. O teto do shopping iluminava irrealmente a carcaça, dando a impressão de uma flor a se entreabrir. Moscas zumbiam sobre o tórax trucidado, dali saíam bandos de larvas, escorrendo num líquido grosso. Tudo isso ia e vinha em ondas, como se o corpo vivesse, e até se multiplicasse. O mais louco é que, na outra esquina, um pitviralata fuzilava os olhos pra gente – talvez achasse que fôssemos comer a sua caça. Precisei os olhos de Zed. Ele tinha a mesma íris que na noite com Salvia. Quem sabe as mesmas digitais. Talvez ele mesmo não soubesse que não é mais Zed, e sim outra id largada por algum Zed, desfazendo-se sob o vento e a garoa cítrica. Me pegou nos ombros, me tirou dali, suave. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Enquanto saíamos, o cão caía de boca naquele esquecido corpo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Na rua, em frente ao shopping morto, Zed me parou. Tinha lágrimas na face. Parecia antigo, uma foto em sépia. Me puxou e me beijou. O cheiro do cadáver ainda ressoava nas narinas, ao mesmo tempo em que sentia que nunca mais queria sair das mãos de Zed. Havia lido algo sobre isso nos Livros Proibidos. Ainda sentia seu gosto na língua quando soltei, sem pensar:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– A gente se vê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-115401178721511686?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/115401178721511686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=115401178721511686&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/115401178721511686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/115401178721511686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/07/12-dia-dos-namorados.html' title='12 : Dia dos Namorados'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-115250577564381815</id><published>2006-07-10T01:28:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T01:29:35.656-03:00</updated><title type='text'>4 : Os cães do curandeiro de Caruaru</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Queres quantas hoje? Tudo isso? Olhe. Tu precisa se cuidar, galego. Rapai. Quanto a mim a decisão não é de deixar a boemia, velho. Mas de ela deixar de mim. Tu não. Tu pode desligar algum negócio aí. Vê se não tem algum treco bráite oráite. Por trás do dente. Embaixo do suvaco. No lado de dentro do furico. Óa. Óa só. Ouvisse? Hum. Foi, foi. Andei tomando uns cactos. Tu sabe. Aquela balinha que tu morde o espinho e explode o esprito no céu da boca. Tratamento contra a dor. Essa que vem de um dentro que a gente não sabe de onde vem. Um zumbido nos nervos. E tu não pára quieto. Dançar nu e encoxar priqituim atrás do tanque e quebrar garrafas por tudo quanto é cabeça. Isso nos dias pares. Nos outros é só desespero mesmo. Cem vermelhas, cem azuis. Duzentas hóstias? Ah, pra menina. Rapai, cuidado com as mulheres dessa cidade, galego. Elas têm o veneno mais sublime. Óa! Olha só. Ouvisse o latido? Estranho. Ninguém nesse prédio tem dinheiro pra ter um cachorro não. Mas escute só. Ouve. Ouve. Outra noite. O controle, o teu controle. Tu já procurasse dentro da orelha? Atrás do joelho? Debaixo do freio do pau? No couro cabeludo? Óa! Foi, foi. Então. Escuta essa. Eu tarra bebo e meu amigo Podrinho me deu um cacto diferente desses que eu vendo. Dali tudo me encheu. Fui para casa e me sentei num sofá. A única coisa imóvel na minha frente nos últimos dez anos era minha parede azul, que com a cor de laranja desse céu ficava verde que só a porra. E nessa noite o verde tava lilás. Fiquei ali sentado olhando fixo a multidão de alfinetes pretos esvoaçando feito tanajuras em uma tarde quente de Caruaru. Daí os latidos. Óa, óa: ouvisse agora? Nem? Mas eu dizia. A multidão de alfinetes ia crescendo e tomando formas. Eu vi violinos, eu vi sombras flutuantes. E vi rabos e vi focinhos e plumas resvalando pelos meus pêlos, minha barba, meu cabelo, os fios que saem de meu nariz. Cheiro de mato, de cio e de tormenta. Meu queixo travou, eu me agitava, dei de salivar e respirar rápido. E detrás das cores da minha sala ensolarada eu comecei a ver cachorros por tudo que é lado. Cachorros subiam pelos móveis. Cavavam debaixo do tapete da sala. Saíam da cozinha, do banheiro, do quarto. Cachorros me lambiam e me cheiravam o cu e os deles entre si. Os cachorros latiam e mijavam nos pés das cadeiras. Os cachorros arrancaram a cabeça do meu Mojo e vieram me trazer os pedaços nos pés. Os cachorros comeram todas as comidas da minha geladeira e cagaram nos lençóis da minha cama, os cachorros chupavam o próprio pau e lambiam a própria buceta, os cachorros comeram minhas roupas brancas de médico. Os cachorros latiam e bufavam e peidavam e suavam. Os cachorros fodiam pela casa e os cachorros se esfregavam em minhas pernas ou então deitavam em cima dos meus pés pra dormir... os cachorros danados me aperrearam a noite toda. No dia seguinte comprei um pacote de ração canina. Vai que. É 500. Cospe aqui, Zed. Eita. Foi pra conta. Cuspe bom pra porra desse galego! Óa, óa. Preste atenção. Ouvisse? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-115250577564381815?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/115250577564381815/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=115250577564381815&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/115250577564381815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/115250577564381815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/07/4-os-ces-do-curandeiro-de-caruaru.html' title='4 : Os cães do curandeiro de Caruaru'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-115025595195197061</id><published>2006-06-14T00:19:00.000-03:00</published><updated>2006-06-14T01:58:34.896-03:00</updated><title type='text'>20 : O fumacê do Profeta Elias</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Toca a campainha.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt; &lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Vou até a porta, receoso. Não esperava por uma coisa dessas... acho que é a primeira vez que ouço a campainha tocar, desde que me mudei para este apartamento. O tempo todo ouço coisas do lado de fora de seu corredor, como portas batendo, ferros batendo, marteladas, latidos, vozes que me chamam para fora. Mas nunca atendo ao chamado, jamais abro a porta. Uma de minhas missões é cuidar de Hannah.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Contudo não posso evitar xeretar o corredor pelo olho mágico. E nada – a não ser, em grande angular, o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Estranho, Hannah... não era ninguém. Talvez fosse um desses garotos que tocam a campainha e saem correndo. Bom, vamos lá, deixa eu continuar a leitura.&lt;br /&gt;– Põe um som.&lt;br /&gt;– Scarlatti?&lt;br /&gt;– Hum-hum. Você sabe mesmo agradar uma mulher, Fabrizio...&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Fiquei vermelho. Mas não quis que ela notasse; virei-me na direção da Psico5, solicitei a &lt;em&gt;K275 &lt;/em&gt;– minha sonata favorita – e peguei o livro.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://www.scite.pro.br/tudo/fic.php?_identidadeperdida"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Uma mulher que conheci, casada e com três filhos, tinha dois gatinhos e arranjou um grande coelho belga, cinzento, desses que andam saltando naquelas enormes patas traseiras. No primeiro mês o coelho tinha medo de sair da gaiola. Era um macho, ou pelo menos foi o que nós achamos, pelo que dava para ver. Aí depois de um mês ele saía da gaiola e ficava pulando pela sala. Depois de dois meses aprendeu a subir a escada e arranhar a porta do quarto de Emily para acordá-la de manhã. Começou a brincar com os gatos, e aí começaram os problemas, porque ele não era tão esperto como os gatos. &lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;a href="http://www.scite.pro.br/tudo/fic.php?_identidadeperdida"&gt;– O cérebro dos coelhos é menor – disse Jason.&lt;br /&gt;– Deve ser – disse Ruth. – Seja como for, ele adorava os gatos e tentava fazer tudo o que eles faziam. Até aprendeu a usar a caixa de areia deles. Arrancou tufos de pêlo do peito e fez com eles um ninho atrás do sofá; queria que os gatinhos ficassem lá. Mas eles nunca iam. O fim dele, ou quase, chegou no dia em que ele tentou brincar de esconde-esconde com um pastor alemão que era de uma senhora que veio fazer uma visita. Sabe, o coelho tinha aprendido uma brincadeira com os gatos: ele se escondia atrás do sofá e aí saía de lá correndo, correndo em círculos muito depressa, e todo mundo tentava pegá-lo, mas em geral não conseguiam, e aí ele voltava a se esconder atrás do sofá, onde estava entendendo que ninguém devia segui-lo. Mas o cachorro não conhecia as regras do jogo e quando o coelho se escondeu atrás do sofá, foi atrás dele e lhe deu uma tremenda dentada no rabo.&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;a href="http://www.scite.pro.br/tudo/fic.php?_identidadeperdida"&gt; &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A campainha toca outra vez. Vou ver. Em grande angular, o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Quem será, agora?&lt;br /&gt;– E eu sei? Eu só leio o futuro às cinco da tarde. Ainda são quatro e cinco.&lt;br /&gt;– Mas ninguém jamais vem nos visitar. E a Divisão nunca disse o que fazer se alguém viesse.&lt;br /&gt;– Espia no olho mágico, gênio.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Um sujeito metido numa túnica branca, barba amarelada, olhos tensos, ninando um gato no colo, mostra os dentes.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Nunca vi mais gordo.&lt;br /&gt;– Pega o seu laser, valentão.&lt;br /&gt;– É mesmo...&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Hannah sempre sabe me desarmar.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mentalizo o revólver enquanto olho para minha Psico 5. Em segundos, um bastão metálico se materializa sobre minha mesa de deliverância. Uma legítima Parabellum .11. Emite um feixe de laser que cortaria até um turbocóptero ao meio. Pode alcançar uma envergadura de dois metros e pesa menos que uma folha de papel. Encaixo na mão direita. Um simples toque e o barbudo vai buscar a cabeça dele no meu capacho.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Meus superiores na Divisão me haviam alertado da possibilidade de outro Agente vir me procurar. Não pensei que viessem logo, porém. Faz quase um ano que estou aqui e nunca saí, nunca ninguém veio, ninguém se comunicou. Me vem um arrepio quando passo o cartão na maçaneta e abro a porta e me dou conta: passei um ano sem ouvir uma voz humana.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Quem é você?&lt;br /&gt;– Quem eu sou? Eu é que pergunto: quem, ou o quê, você é? Aliás, nem é isso o que eu quero saber. O que eu quero saber é onde descolo umas anfetas nessa cidade.&lt;br /&gt;– Umas o quê?&lt;br /&gt;– Umas anfetaminas, dammit. É impossível viver nesse mundo aquático sem isso. Essa cidade é úmida, pegajosa, varia de um frio glacial pra um forno crematório, ipês-roxos floridos pra cactos cadavéricos... Hummm... o que é isso que você tem aí na mão, velhão? Uma parabelo? É legítima? Adoro armas antigas... sabe, tinha um Colt 44 feito em 1860, durante a Guerra da Secessão, mas vendi pra pagar umas dívidas com meu dealer... Watch out!&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E jogou o gato em cima de mim. Assustado, segurei o bichano pelos sovacos. Quando percebi, o barbudo apontava uma arma velha pro meu peito.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;–... mas depois consegui reaver. – Tranqüilo, ele me mostra, todo orgulhoso, balançante, o pesado revólver. O gato se arrepia todo no meu colo. Em algum lugar da minha mente, pressinto Hannah rindo da minha cara, a maldita. Rangendo os dentes, o barbudo recoloca a arma por baixo da túnica. – Eu achava que os Agentes da Cidade-Olho fossem mais espertos. Mas você parece estar mais enferrujado que esse Colt. Não vai me convidar para entrar?&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Ei, chefe, me tira daqui! Esse cara está se tremendo todo... vai que ele me derruba naquele aquário! Aquele peixe é grande demais para eu comer... – fala o... o gato. Ah, não. Um tubarão que conversa comigo por telepatia eu até engulo, mas um gato falante? Confuso, decido fechar a porta atrás do barbudo.&lt;br /&gt;– Entre...&lt;br /&gt;– Me deixe fazer as apresentações. – Pega de volta o gato. – Este aqui é o Fred Astaire. Nosso colega Mark teve de viajar e me pediu pra que eu cuidasse do bichano.&lt;br /&gt;– Mark Sandman? Viajou? Pra onde? – balbucio, descontrolado. – Mas e você, quem é?&lt;br /&gt;– Sou o Agente Elias – sorri. Tem um olhar profundo, parece flutuar por trás de mim. – Mas pode me chamar de Profeta: é meu nome de guerra na Divisão.&lt;br /&gt;– Se é um profeta, então realmente somos colegas... – brinco. Ele tem um aperto de mão muito forte. Mas a mão treme como a de um viciado em speed. Ele range uma mandíbula sobre a outra.&lt;br /&gt;– Um café?&lt;br /&gt;– Claro.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Vou à cozinha. Volto-me, hesitante.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Olha, me desculpe o mau jeito. É que faz tempo que não recebo visitas... – Pressinto a irritação de Hannah, por sacar que estamos fora do alcance de sua visão. E então me vem uma onda de alegria, de loquacidade. – Mas olha: eu me recuso a fazer café no estilo yankee, aquela água de batata que vocês bebem. Já que está na minha casa, vai tomar um café de paulista. Escuta, Elias, por falar nisso – enquanto ligava a cafeteira, tentava recobrar o domínio da situação: afinal, estava em minha casa –, que história é essa de anfetaminas? A Divisão deixa que os Agentes usem drogas dessa maneira? Desculpe tocar no assunto, mas você parece um pouco afetado...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– O mau uso das drogas não é uma doença, meu amigo – sorri benevolente o Profeta, puxando uma cadeira enquanto joga suavemente Fred Astaire ao chão. Puxa de dentro da túnica, que deveria ter milhares de bolsos ocultos, um cigarrinho e um fósforo. – É uma decisão. É como a decisão de parar na frente de um carro em movimento. Você não chamaria isso de doença; mas sim, um erro de julgamento.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Por trás da névoa dourada que escapa da boca do Agente Elias, noto que o café ficou pronto. Súbito, percebo estar vestindo um pijama. O que me dá uma noção de irrealidade.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Mas para o que você usa isso? É vício? É para fugir da realidade? Nossa realidade, trabalhando para a Divisão, já não parece escapista o suficiente?&lt;br /&gt;– Realidade, Fabrizio – ele leva a xícara aos lábios, mas, antes de beber, aspira densamente o aroma do café. Fecha os olhos –, humm – e sorve a bebida devagar, de uma só vez. Deposita a xícara de café na mesa e estende a mão sobre a minha. Sorri de novo aquele sorriso bondoso, mas que ao mesmo tempo parece saber algo terrível sobre mim, que eu mesmo não o sei. – Thank you very much. Não tomo um café bom assim desde que minha segunda mulher faleceu. – Faz uma pausa. – O que você dizia mesmo?&lt;br /&gt;– Eu não dizia nada. Você é quem estava falando sobre realidade...&lt;br /&gt;– Ah, sim, a realidade. Realidade, eu acho, é aquilo que, quando você pára de acreditar, continua existindo, mesmo assim. Ela se recusa a ir embora, quer você acredite, quer não. – Fred Astaire, que estava passeando pela cozinha, irrompe no colo do Profeta. – A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se você controla o sentido das palavras, controla as pessoas – que precisam usar as palavras. Você diz que eu estou afetado. Mas quando cheguei em sua casa, pensei que tinha errado de endereço e fiquei zanzando pelo corredor. Pude reparar que você tem o costume de falar sozinho. Se eu fosse uma pessoa preconceituosa, diria que ficou tanto tempo trancado aqui que já está ficando maluco.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sorri.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Pode parecer loucura, mesmo. Mas eu estava falando com a Hannah...&lt;br /&gt;– Quem?&lt;br /&gt;– O tubarão. É uma agente transmorfo, uma das maravilhas da Divisão, não sabia? Nós trabalhamos em conjunto para fazer as predições. Hannah fala comigo por telepatia. Juntos, somos o Oráculo.&lt;br /&gt;– O único oráculo em que acredito é o I-Ching – Virou sua xícara de uma vez. – Sabe, antigamente a maioria dos meus conterrâneos tinham basicamente duas crenças: uma era que Deus estava morto e a outra é que realmente existiam diferenças entre as marcas de cigarros. Felizmente os norte-americanos já não estão mais no centro do Império. Ainda bem que vocês não têm esse tipo de preconceitos aqui no Brasil...&lt;br /&gt;– Temos outros...&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ele range os dentes.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Tem mais café? – Levanto-me para pegar o bule enquanto reconheço o aroma da fumaça. Skunk. Poxa, os Agentes andam pegando pesado. Elias pisca o olho, enquanto o sirvo: – Não, Fabrizio, olha, eu estava brincando. Conheço o trabalho de vocês... o Mark falou muito da dupla. Por isso vim aqui... – Adotou um tom de confidência. – Sabe, um de nossos Agentes sumiu, não sei se ficou sabendo. É ainda sigiloso...&lt;br /&gt;– Quem?&lt;br /&gt;– Zed Stein... Desapareceu completamente.&lt;br /&gt;– Morto?&lt;br /&gt;– Creio que não. Encontramos pistas recentes dele em alguns lugares... Londres, Istambul, Asunción, Hong Kong. O problema é que ele estava envolvido em uma investigação supersecreta – nem eu sei o que é –, e Mark está furioso com o sumiço dele. Aí, me colocou na caça. É aí que vocês entram. Preciso de uma predição em Zed para... para um dia, mais ou menos. Consegue? Hei, quero mais um café.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Levanto-me para fazer mais, enquanto Elias solta outras baforadas.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Não tomo um café bom assim desde que... desde que a minha segunda ou terceira mulher se juntou aos Panteras Negras, acho. Aquela vadia. – Puxou forte a fumaça; Fred Astaire elevou sua patinha para o ar, na esperança de apanhar um dos círculos do fumo amarelado. – Mas, sabe, até que ela me fez um bem. Naquela época, eu era um burguês, como você, tinha minha casa, meu cachorro, meu Buick novo. A mulher me deu um pé na bunda tão forte que acabei indo morar na rua!... Isso foi ótimo: comecei a perceber que não existe isso de uma pessoa ser um vendedor, um cineasta, um encanador... somos todos, essencialmente, patifes. Você é um patife, Fabrizio? – Soprou a fumaça. – Mas por que estou falando disso? Desculpe, divago. Essa California Indica é mesmo muito boa. Comprei ali na Praça da República, acredita? Não quer mesmo um pega?&lt;br /&gt;– Desculpe, Elias, mas não posso. Você sabe, meu trabalho está diretamente conectado com a Mnemomáquina – qualquer transtorno em minha memória pode desvirtuar minhas predições. Além disso, lembro-me vagamente de que fumei maconha quando era jovem, tinha uns 20 anos, e me deu uma aterrorizante vontade de morrer... quase tentei me matar. Estava no topo de um prédio, em uma festa, e fiquei sinceramente tentado a me jogar lá embaixo. Me deu paranóia, creio.&lt;br /&gt;– Paranóia? Que engraçado. Sabe, colega, eu já tentei me matar, uma vez. Era garoto e sonhei que um cavalo tentava pular por sobre a minha casa; mas não conseguia, caía no chão e morria. Então, escrevi uma carta para minha mãe, dizendo que aquele cavalo simbolizava a minha vida, que não conseguia sair do chão. Quando vi, estava tomando várias pílulas de soníferos dela... aí, chamei ajuda pelo telefone. Isso me levou a crer que os suicidas na verdade não realizam o que estão fazendo quando fazem a besteira. Acho que nem Hemingway nem Kurt Cobain nem Hunter Thompson realmente não tinham a ciência de que iam dar um tiro na própria boca. Ao contrário do Burroughs, que praticou isso a vida inteira, aquele velho boqueteador. É mais ou menos como a morte da Gertrude Stein. Ela tinha operado um câncer, e ninguém sabia, antes da cirurgia, se o câncer realmente era removível. Então ela acordou, logo após a cirurgia, e perguntou para os médicos: Qual é a resposta? Ninguém disse uma palavra. Aí ela soltou: Qual é a pergunta? E morreu imediatamente. Acho que é isso: se ela não tivesse perguntado, não teria morrido, assim como Hemingway. Como num sonho, você imagina que sua vida acabou. Mas sempre tem um último segundo em que pode pedir ajuda, mover o rifle para o outro lado, ou simplesmente calar a boca. Foi o que fiz, e é por isso que ainda estou aqui.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Não sei o que dizer. Fico só observando a barba falha de Elias, da mesma cor dos círculos de skunk, e tentando juntar as peças. Ele me espia com seus olhos fundos e oblíquos, solta uma risadinha e se levanta.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Bom, Fabro my darling, vou andando. Não se esqueça da predição sobre Zed Stein. Precisamos encontrar esse doidão antes que faça merda ou acabe soltando alguma informação... e aí, você sabe, teremos uma DR...&lt;br /&gt;– O que é isso? Discussão de relacionamento? Isso eu já tenho bastante com o meu tubarão...&lt;br /&gt;– Não, amador! – Ele riu. – Uma Delenda Ratio. Desligar seus circuitos racionais. Em suma, fechar seu corpo físico, sintetizá-lo em uma sopa de silício e torná-lo uma mera memória líquida para ser acessada por um HD da Divisão, ou como um morto-vivo para ser vampirizado e sorvido em colheiradas pela Psico5 de outro Agente... Algo muito triste. Mas você vai me ajudar a não precisar fazer isso com o velho Zed. Se você quiser me encontrar, é só mandar um recado através da sua Psico5. Vou ficar aqui na Cidade-Olho mais um tempo. Preciso dar um jeito nessa horrível dor de cabeça. Ouvi dizer que tem um traficante de anfetaminas, um tal de Doutor Apocalipse, que se finge de dentista, ou de proctologista. Me passe o reporte assim que puder, ok? Muito obrigado pelo café.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Elias vai até o aquário e faz uma elegante mesura para Hannah. Ela dá um pique de lado a outro do tanque. Deve ter ficado com tesão, safada. O gato sobe no ombro do Profeta, que se despede com uma saudação budista.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Namaste.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Fecho a porta e me volto para minha colega de trabalho. Nossa, já são quase cinco horas.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Vamos lá, Hannah... o Momento...&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sento-me à minha cadeira e fixo o olhar no olhar do tubarão. O sol cai ao meu nordeste e invade meu largo apartamento de reflexos amarelos, alaranjados, lilales – e meus olhos tunem no Rubi.&lt;br /&gt;Porém, o que vejo nas malhas translúcidas do corpo do grande peixe, em esgares e estrias entre negro e dourado, é um sujeito que lembra o ator Rutger Hauer, a me encarar, em grande angular. Não faz sentido. Alguma projeção da Psico5?&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O Momento se foi. O Rubi se esgarçou até se tornar a fuligem que banha as águas do tanque de Hannah.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E então, como diziam antigamente, caiu a ficha.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O Agente Elias é o autor das linhas que eu lia para Hannah.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Philip K Dick.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A voz do tubarão surge em minha mente.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Só agora percebeu isso, gênio? Está tão interessado em alta literatura que nem se dá ao trabalho de ver o retrato dos autores na orelha dos livros... eu percebi que era ele assim que entrou.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Toca a campainha. Algo foi revelado, porém não compreendo.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Vou até a porta, receoso.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ainda meio parvo, apóio minha testa na porta. Então quer dizer que K Dick está lá embaixo, em algum carro-barco, doidão de skunk, rindo de mim... ando mesmo enferrujado, como ele disse.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas, no olho mágico, em grande angular, somente o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Giro as chaves na fechadura e abro a porta com raiva. No chão, no capacho, a sombra negra de um gato.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Fred Astaire.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Está chovendo muito lá fora. O Elias disse que eu posso dar um tempo por aqui...&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Fecho a porta, ainda sem acreditar. O bicho passa entre minhas pernas e se posta na sala, olhando admirado para Hannah. Algo me diz que minha vida com esses dois bichos falantes vai ficar meio complicada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Fique tranqüilo, Fred... a Hannah só come carne humana... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-115025595195197061?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/115025595195197061/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=115025595195197061&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/115025595195197061'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/115025595195197061'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/06/20-o-fumac-do-profeta-elias.html' title='20 : O fumacê do Profeta Elias'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-114654810653325795</id><published>2006-05-02T02:29:00.000-03:00</published><updated>2006-05-02T02:35:06.550-03:00</updated><title type='text'>3 : Baby Gasoline and other songs</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/baby_gasoline.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/baby_gasoline.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;Sou a única versão dos fatos&lt;/strong&gt;, você vai ter que acreditar em mim. Assim, creia: meu nome é Helena e eu adoro cheiro de gasolina. OK, você pode achar estranho esse início – desculpe; não sei me identificar como &lt;em&gt;Helena H., 25, fotógrafa e garota-propaganda&lt;/em&gt; [você acredita nas legendas das fotos dos diários? acredita em noticiários? que aquelas coisas realmente aconteceram? Ou tudo não seria uma conspiração para anularmos nossos dias em detrimento de naves que caem no Paquistão, a última besteira proferida pelo presidente da corporação ou o novo holodrama que vai mudar a sua vida?], e sou uma mulher que não gosta de escrever usando esses handrands, sou estabanada, vivo quebrando as unhas nos controles; por isso escrevo à mão, e dentro da minha banheira, de preferência. Sim, estudei caligrafia, essa coisa arcaica, na época em que tatuei as rosas que decoravam todo o lado esquerdo de Salvia Divinorum... Não, esse início não está mesmo bom, mas estou tão nervosa – é a primeira vez que você olha para mim, seus olhos se apertando a cada letra dessa caligrafia flutuante como água, minha linguagem, buscando capturar você de corpo todo; e não compreendendo, talvez, que raios vim fazer na sua vida, quem sou, o que quero. Tudo o que eu posso dizer no momento é que meu nome é Helena H, que sou fotógrafa e que os pêlos da minha nuca se agitam quando sinto o cheiro de gasolina no ar, e que foi por isso que resolvi te escrever. Gasolina hoje que é tão cara quanto o perfume mais impossível. Se fosse antigamente, talvez quisesse só morrer e me mataria de algum modo idiota, já pensei em me afogar durante as tormentas de verão, quando os azaratones sobem pelos postes e pelos antigos prédios do século dezoito comendo os passantes vivos; mas pensava que em vez de mergulhar numa boca de lobo poderia é cair na boca de um azaratón então preferi virar outra coisa – outras coisas: ser muitas diminui qualquer solidão. Minha mãe, Anjelika Zapata, costumava contar as histórias do Grande Incêndio dos RGs que rolou lá faz quase quinze anos, eu deveria ter uns dez, quando as cirurgias plásticas e as metamorfoses orgânicas ficaram tão baratas quanto os passaportes no câmbio negro. Nascia a Era das Personalidades Intercambiantes, foi assim que a mídia registrou o fato – entanto, logo os fatos começaram a se dissipar pois os jornalistas também viciaram na coisa e passaram a assinar matérias com nomes cada vez mais diferentes e aí ninguém mais acreditava em nada do que lia; tinha sempre um novo impostor contando novas mentiras corporativas sobre política, futebol, comportamento, economia, cultura... Sim, eu li os Livros Proibidos... Você sabe bem disso, não consigo me esconder de você. Hoje, fico aqui falando com você mas sei que no fundo você sou eu – e isso é o que mais me irrita: mesmo com a possibilidade de sermos outros, continuamos falando somente para nós mesmos; como faziam os blogueiros do começo do século, máscaras em frente ao espelho, ao infinito... Preciso de uma bebida. Antes que eu invada um posto e peça pra me enfiarem gasolina azul nas veias. Foda. Ser várias não é pra qualquer uma.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-114654810653325795?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/114654810653325795/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=114654810653325795&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114654810653325795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114654810653325795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/05/3-baby-gasoline-and-other-songs.html' title='3 : Baby Gasoline and other songs'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-114532509896720527</id><published>2006-04-17T22:23:00.000-03:00</published><updated>2006-04-24T03:41:02.056-03:00</updated><title type='text'>22 : No Vale de Zuma</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/butthole%20kongo.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 213px; CURSOR: hand; HEIGHT: 206px" height="213" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/butthole%20kongo.jpg" width="247" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;Deus&lt;/strong&gt; é noise é noise é noise. Barulho preto, ruído branco, papo reto, pau a pau. Os biciclopes, as dildodeidades, os homocangurus, meus irmãos em falta de armas, levantem-se. Tem que ter cor, tem que ter coragem, porque quem tem cor, age. Eu sou a soma de todas. Ou a ausência de nenhuma. A lua senão reflexo é. Anões sem braços – os bibelomilos –, as sereias gostosíssimas e tortas chamadas supermancas, e os tecnocentauros, possantes cadeirantes sem mais dinheiro pra comprar óleo para suas engrenagens. Aqui no vale da Zuma todos são zumbis a buscar a lua cheia para romper o plexo solar com a lâmina lavrada no batuque. Caçam sua passagem em Zuma, o vale do último gesto. Aqui ninguém mais agüenta a hora morta do mundo escuro. As gurias azuis com lixa na buceta, os homens-catracas descartados pelas últimas companhias de transportes coletivos, as anciãs-esteiras despedidas dos obsoletos supermercados. Aqui, agora, se pacta a autosabotagem, a vingança mútua, o rito das mônadas que não deram certo, a brodagem no vacilo – tudo na crocodilagem genérica. Sob o noise o noise o noise dos tambores unvulados dos Vovôs Coisos. Os que ficaram à margem, roendo o próprio osso. Meus irmãos em lapsos de DNA, os inventos que ninguém mais quis, nascidos em baias, por trás de vitrais, dentro de tubos de ensaio, a gênese ali no íntimo do asséptico de cada laboratório ou boca-de-porco genética do Estado da Transição. Meus irmãos, as mulheres lacraias, os homens aquosos, as mademoiselles mengele – com um implante neural no rabo, falam diversas línguas com a bunda. Um tesouro de genes recessivos, uma barragem que não se sabe fluxo nem nexo. Prontos para o meu veneno. Sim, foram dilapidados de credo – mas não de medo. Medo não tem segredo. Única força ganha na rapinagem. A crocodilagem é geral entre irmãos que não se reconhecem o sangue. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O vale do último gesto, berço da minha experiência. Campo de dispersão de energia, fuleiragem sem folia, a dança das carcaças ensaia seus passos na clareira aberta por meteoros. Lepra, varíola, aids, câncer e fogo selvagem. Uma usina de extertores. Zuma. Ouve-se por quilômetros o roar dos Coisos que se suicidam. É noise é noise é noise. Tudo aqui nasce sem longitude nem latitude. Um ímã de nada. Um casal de cada ímpar fode-se e se crava a lâmina no peito. Um do outro, zero a zero. Amor, enfim essa arca inversa. Enquanto se fodem e se fodem, eu preparo o difusor da Palavra. Um nome pra droga como outro qualquer. Um grave formado por batidas de crânios contra peles de ex-humanos. Zuma é o vale do último gesto. O que cria o homem. O que cria um novo homem. E é esse gorila albino que vem lhes trazer o conforto. Serei vosso Messias, vós que perdestes o sangue. Que nem pensariam em honra. Aqui não há tempo para árvores secas ou dramas de falas. Onomatopéia aqui é luxo. Mesmo os cegos escoam luz pelos olhos. Quatro ruas levam ao círculo onde se recolhe o sangue dos mártires de laboratório. Aos poucos, forma-se um lago nos Quatro Cantos de Zuma aqui onde era antes uma encosto do Morro da Conceição, perto do antigo Alto Zé do Pinho. Aqui em Recífilis. Um poço suga a doença e a leva para o mar. É a crença. É para lá que desço, carregando minha mochila de sacanagens. Não prender a passagem, essa a rima. É noise é noise é noise. Há cinco anos eles aqui chegam pra morrer. Mas de hoje em diante o sangue correrá de volta a suas veias. O homem só se conhece na destruição. Verto o veneno sagrado na vala de todos os sangues. A Palavra chegará aos vossos corações, mas falará em um dialeto que desconheço. Não há tradutor para o medo. Noise é noise é noise. Cascatas de ruído branco, a cor da coragem. Os Coisos se levantarão ás cinco e meia da madrugada. Uma única estrela sobre as escarpas das quatro montanhas que velam o Vale de Zuma. O rio subterrâneo que flui da lua para o mar. A Palavra se ligará em todos os fluxos, lava gelada. Meu trabalho é lento e continuado, não tem descanso. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O raio da prata sobre esses subumanos de lata. O poço reflete rubros meus olhos, a lua. Uma nuvem. Mergulho. Logo caminharei sobre as águas. Butthole Kongo. Um mensageiro. Ouço as novas vozes dos Coisos, meus filhos. E sumo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-114532509896720527?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/114532509896720527/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=114532509896720527&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114532509896720527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114532509896720527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/04/22-no-vale-de-zuma.html' title='22 : No Vale de Zuma'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-114413289379470165</id><published>2006-04-04T03:39:00.000-03:00</published><updated>2006-04-24T03:29:04.136-03:00</updated><title type='text'>21 : Como amar uma soldada judia em 2027</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/Rachel2.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/Rachel2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;Rachel&lt;/strong&gt; entra em casa silenciosa. Ela pensa que não. Mas eu sempre acordo quando minha mulher chega. Eu finjo. Fingir é nosso método, é o que nos une sob mesmo e outro uniforme. São seis da manhã. Ainda escuro. Quente já. Passei a noite toda escrevendo. Imaginando-a na sentinela, meus pensamentos perseguindo os anéis da fumaça do seu vigésimo cigarro. A &lt;a href="http://www.impactguns.com/store/MGT-100639.html"&gt;Uzi&lt;/a&gt; feito um cão sobre seus pés dormentes no frio dos coturnos, o metro por metro que lhe adelgaça e espessa os músculos, a janela que é penteadeira para a sua vaidade insular – as rajadas, a música da caixinha em que ela, bailarina, ensaiaria seus passos de ganso. Esta noite passei escrevendo poemas sobre meu deus, meu paraíso, meu inferno, sobre a ponte que separa os dois abismos e os túneis de Rachel. Nós indissociáveis de minhas fibras. Eu sinto o odor de seu uniforme e a ouço riscar os fósforos para o penúltimo cigarro do dia – sempre fuma um antes do café, e outro antes de dormir, pouco antes de sua língua nitotinada vir brincar comigo. &lt;em&gt;Primeiro mandamento: escova mil vezes os ruivos cabelos de tua amada tão logo ela entre em casa.&lt;/em&gt; Poemas sobre o muro que nos habita, sobre os cabelos que crescem dentro do coração e sobre o cheiro forte que as dobras judias de Rachel deixam em minhas digitais turvando-me os olhos sobre os caracteres que desenho de trás para a frente, de baixo para cima, sempre para cima – minha escrita ascende aos céus incorporando-se ao fumo do meu haxixe. E sinto as solas dos coturnos que avançam mornos e sujos sobre meu peito, marcando-me com chicletes, cigarros e os mijos das cascavéis da tríplice fronteira. Faz tempo que não chove nessa maldita cidade. Aqui só bombas. E o pior é que gosto disso. &lt;em&gt;Segundo mandamento: conhece a densidade, o aroma e a cor da graxa dos sapatos da tua mulher como sabes da sombra de teus líquidos mais interiores.&lt;/em&gt; Escuto Rachel ligar o filtro de água, escuto as bolhas de ar em seu copo, escuto a água descendo por sua garganta – bebemos a mesma água já faz uns anos. Isso não pode continuar. Em breve, minha prima e amada Rachel vai perder seu emprego por mim, eu, o poeta barbudo oculto debaixo de sua cama, aquele que só vive à noite. O nariz de minha prima feito uma linha do horizonte na miragem do deserto de Hebron, deitado parece uma montanha raquítica do Sinai. Quando a vi a primeira vez, Khaled Al-Zahhari havia me mandado passar um recado para os nossos em Haram el-Sharif. Mais uma ação de rotina. Ela fazia ronda perto de uma delegacia que havíamos explodido duas semanas antes. Seus dedos se alongavam no fuzil e as mesmas nuvens que haviam deleitado os profetas cambiavam de cor lá no interior de suas pupilas enquanto ela me fixava o olhar – ou seria o haxixe que meu amigo Sah Men-Ezz tinha me dado faria efeito demais? &lt;em&gt;Terceiro mandamento: mantém tão brilhantes as fivelas do uniforme da tua amada quanto as lâminas em que afias tua vingança&lt;/em&gt;. Claro que não posso escapar da minha sina - do meu pau que demarca cada vez mais latifúndios nessa selva de paredes e línguas arranhadas. Chupões no pescoço, coceiras nas virilhas, mordidas no dorso da mão denunciam os outros quintais por que me aventurei: Rachel somente vê e me diz, grave, que dez dos nossos foram abatidos hoje num bairro qualquer da sagrada cidade. As outras são ninharias. Aqui se morre na mesma xícara de café, minha mulher bem sabe disso - ela me solta pra ter-me cada vez mais preso. &lt;em&gt;Quarto mandamento: foder de abismo em abismo é tua salvação diária – mas lembra-te, os três abismos da mulher amada é que elevarão à glória de teu deus, um após o outro, até, trinta e três vezes três, chegarás ao conhecimento do centésimo nome de Deus.&lt;/em&gt; Rachel tira devagar suas roupas pesadas do pó amarelado da terra por que brigamos há centenas de anos e eu me viro na cama e abro os olhos e contemplo seus seios epicamente esféricos e me lembro no ato da pizza que fiz para ela e que agora repousa resfriadamente kasher dentro do forno de microondas. E sei então que vou ter uma comoção porque Rachel vai olhar para mim e fazer aquele sorriso por saber que cozinhei para ela e vai se voltar na direção da cozinha e eu verei suas costas magras se aproximarem, gêmeas carnes exatas como os minaretes de uma mesquita de Sarajevo, seu ventre em breve um domo dourado, e estremecerei, por me lembrar do que faremos - e por me lembrar do que faremos em seguida. Me lembrar de para o que o Fazedor nos fez. Nos comer como cães. Por todo o dia e meu cansaço e os tiroteios dez andares abaixo. Quebrar todas as correntes para chegar perto dela. Tantos cadernos que rabisquei para me manter pensando só em Rachel, e uma outra anotação faz com que o Fazedor leve minha face para o azul de nosso paraíso – somente tento ser feliz, e outro sorriso falso esboço, ah, Allah, como sei, como sinto que só o Fazedor pode fazer de mim alguém feliz, mas de vez em quando nos mordemos como cães, e nos comemos como cães. &lt;em&gt;Quinto mandamento: alimenta tua mulher como uma ave a seus pássaros, como um inimigo dissolve rancor sobre as raízes das árvores secas dos teus antepassados.&lt;/em&gt; Qual de nossos profetas antevirá primeiro nosso fim? Os ruídos que ela agora faz na cozinha, o tridente e a lâmina, azeitadas pelo meu óleo, se batendo no meu leite, no meu trigo, nos frutos vermelhos do meu corpo – sua fome sobre minha terra nunca termina. E o fogo em meu kiff ilumina o quarto se refletindo como um fantasma amarelado no dorso da Uzi que ela abandona ao lado da bolsa onde guarda o batom, os poemas que lhe escrevo, o pouco dinheiro que nos resta, as ordens que tivemos, um lenço, um cartão postal da Sérvia, uma bala de revólver prateada com nossos nomes, um player de música, um plástico que envolve frutas secas, sua cartela de anticoncepcionais. Esse quarto está caindo aos pedaços. Nós não estamos muito melhor. Mas pelo menos somos nós mesmos que acionaremos o botão vermelho da firma de demolição. &lt;em&gt;Sexto mandamento: amarás os pés inchados da tua mulher quer eles estejam acima ou abaixo de ti. E que tuas risadas lhe transbordem o cenho, lhe transtornem o senso.&lt;/em&gt; Eu dizia a ela que era uma judia falsa. Que descendia de ciganas judias sérvias há centenas de anos – seu porte não poderia jamais esconder. E os mosquitos comiam meus braços - os pernilongos nunca acreditam se você diz que é sangue ruim. E nós somos um povo do deserto. Nós gostamos do terror. Nada do que é humano pode nos ser indiferente. Prezamos a deserção solar, a comunhão com o fogo. Dizíamos isso antes dos romanos, e pouco depois dos babilônicos, e continuamos a repetir o mesmo, através dos séculos. Incendiar templos está em nosso sangue, tão logo criamos nossos deuses com frutas secas e miragens. &lt;em&gt;Sétimo mandamento: prezai o vidro moído na salada de frutas.&lt;/em&gt; Rachel comia a pizza de mussarela e manjericão com o olhar tremulando na luz do meu kiff, por trás da névoa esverdeada, a corrente prateada com sua identificação dupla pendendo do pescoço, cada lado para um deus, cada aréola de seus pequenos seios um diverso planeta. E me lembrei de que ela estava grávida. Que nome daríamos para o filho? &lt;em&gt;Oitavo mandamento: deixar que tua mulher te penetre com ácido e açúcar, até que tua carne rija a leve para dentro de si mesma.&lt;/em&gt; O cheiro da comida me lembrou que estava vivo – mas o cheiro do suor de Rachel me lembrou de como seria minha morte. Teríamos somente mais cinco horas pela frente, talvez, nós três. A última refeição seria este nosso fatiado e fatigado café da manhã, com o café que ela agora preparava, o café turco que tanto gostamos de beber antes de nos enfiar nesses lençóis enroscados como duas cascavéis, até trocarmos um de pele com outro, nossas línguas brigando e comunicando nosso fim e nosso começo. Viver longe, viver uma vida além de qualquer Messias, de qualquer Profeta ou Fazedor qualquer, um inferno nosso particular, nossos nomes na história pobre de três tribos ridículas. &lt;em&gt;Nono mandamento: tudo o que amas destrói, destrói tudo para amares o nada que seja – e te lembras disso quando dançares na sala com tua mulher, a cada passo, a cada tropeço.&lt;/em&gt; As bombas de antraz estavam preparadas já antes do café, ali em algumas mochilas ocultas sob a cama nossa de toda manhã. Em duas horas, Hossein e David deixariam na garagem a van que nos levaria ao reservatório de água dessa cidade seca. Apago o kiff e penso que em breve não mais existirão mentiras de Jerusalém. Em breve só existirão Rachel Pillstein e Hakeem Husam al Dim... e somente os muros, os minaretes, os arames farpados, as ruas estreitas, o ar espesso e turvo de sangue. Massageio os pés de minha mulher, os aproximo de meu ventre, de minhas faces, abro minhas narinas para deixar entrar em meu corpo o cansaço que sua caminhada exala. &lt;em&gt;Décimo mandamento: concordarás com tua amada no instante em que ambos forem anjos.&lt;/em&gt; Bebemos nosso café. Acordamos para o que há por vir... mas antes, observando atento seus maravilhosos dentes, nuvens de leite sobre mim, não posso deixar de notar que Rachel tem covinhas nos cantos dos lábios quando sorri.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-114413289379470165?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/114413289379470165/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=114413289379470165&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114413289379470165'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114413289379470165'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/04/21-como-amar-uma-soldada-judia-em-2027.html' title='21 : Como amar uma soldada judia em 2027'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-114324582274755853</id><published>2006-03-24T21:15:00.000-03:00</published><updated>2006-06-14T00:19:15.986-03:00</updated><title type='text'>2 : Sandiliche has left the building</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;         Sumiu. Sumiu, ejo sumiu...&lt;br /&gt;         Who sumiu?&lt;br /&gt;         Sandiliche...&lt;br /&gt;         How tipo, Sandiliche sumiu, ou nem?&lt;br /&gt;         Sumiu, ejo away... Pegaram ejo...&lt;br /&gt;         Who levaram?&lt;br /&gt;         Os do ladolá... Trangers... Milícios... lo sé no manita...&lt;br /&gt;         How tipo?&lt;br /&gt;         Tinha unos panos black... a faixa tipo lo peito...&lt;br /&gt;         When, when?&lt;br /&gt;         No lo sé, jo todavia tava travesseiro...&lt;br /&gt;         Hum, então viu how?&lt;br /&gt;         Lo sonho...&lt;br /&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;         Bela suspirou e olhou por trás do irmãozinho funguento para o rio de brancos copinhos de plástico. Ali onde estavam, o estuário havia trazido uma geléia de isopores, garrafas PET, mijo de pilha, latas de alumínio amassadas, ferros retorcidos sob uma nuvem de sacolas de plástico de supermercado que voavam em redemoinho ali, exatamente ali. Para aquele afluente do Tietê eram desviados os metais, os isopores e os plásticos, que receberiam, alguns quilômetros abaixo, tratamento de uma usina de reciclagem. Entretanto, por algum motivo, ali naquela curva do rio sujo somente copos de plástico boiavam acima do curso do lixo, em camadas e mais camadas de cores que iam do marrom cocô ao branco gelo, de baixo para cima – volumes tão grandes que às vezes no meio do curso pequenas ilhas somente de copos se formavam. Numa noite, numa dessas ilhas, a uns duzentos metros do barraco, encontrou o irmão nu, os olhos azuis demais luminosos. Teve de resgatá-lo com um barco do dono do Lixão, escondida – se o dono visse, babau. Quando o tirou de lá, ele explicou que havia chegado à ilhota conversando com seu amigo Sandiliche, e que o amigo tinha saído pra comprar um picolé. Pero ejo num volveu, tremia ele no frio da noite lilás. Nunca soube como Luki tinha conseguido escapar das correntes e chegar tão longe.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Desta vez, parecia que realmente Sandiliche havia ido embora. Melhor assim. Bela não suportava mais as histórias que Luki contava tendo Sandiliche como protagonista. Ele tinha cinco anos, poxa, estava na hora de parar com isso. O sol mal havia nascido, tornando sua casa de teto de zinco um forno – fincada em uma palafita há cinco anos, um metro acima do esgoto semovente, a casa era um barraco de dez metros quadrados, varanda, sala/cozinha e banheiro. Um luxo para somente duas pessoas. Como trabalhava na usina sanitária, o casal de irmãos não era incomodado. Daqui a pouco ela teria que sair pra pegar no pesado na usina subsidiária da Companhia das Águas Ocidentais. Estava morrendo de sono, e de manhã sempre gostava de tirar alguns minutos contemplando a maré-balé de copos de plástico – como se o dorso de uma grande baleia cuja pele coalhada de cilindros... Ver o dorso de baleia a acalmava; era um jeito de sentir que seu trabalho até poderia ser bonito, sua vida até que tinha uns segredos belos... ser um Coiso não seria afinal assim tão ruim. Só que Luki tinha acordado mais cedo que devia e perturbava sua meditação matutina. Levantou-se, fez uma carícia impessoal no cabelo louro do irmão resmungante e foi pro fogo aquecer uma gororoba pro desjejum. Tinha achado no lixão umas latas de leite em pó, não aquele de azarato, horrível, esverdeado. Mas logo iriam acabar. Misturou o leite com um troço vagamente parecido com chocolate, meteu no microondas, em cinco minutos estavam bebendo e mascando farelos de farinha, a espiar o estuário feito dois milionários e seus drinques à beira de sua piscina azul – uma piscina, haveria mesmo piscinas no mundo, como ela havia visto as imagens? Ela estendeu o braço e apertou o ombro de Luki que ainda sofria com a perda de seu amigo, puxou-o, brusca, numa desafinada carícia. Os dois irmãos juntos, os dois únicos habitantes daquela minúscula e esquecida parte do mundo, daquela solitária casa de papelão, tijolos, chapas de alumínio e zinco naquela sortuda ilhota do estuário dos copos de plástico duzentos quilômetros a nordeste do centro da Cidade-Olho – onde as coisas começavam, enfim, a ficar um pouco secas.&lt;br /&gt;.         &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;         &lt;em&gt;How lo sonho?&lt;br /&gt;         Hum, teve barulhão, bum! E los trangers volando e...&lt;br /&gt;         Explosión?&lt;br /&gt;         Hã hã, e ejo caiu chão, tum, bateu cabeza...&lt;br /&gt;         Machucou?&lt;br /&gt;         Drumiu... daí los milícios el lo comedor...&lt;br /&gt;         Era lo comedor, sô?&lt;br /&gt;         Era... ejo bebia sopão...&lt;br /&gt;         Tava solo, ou nem?&lt;br /&gt;         Num, tinha o bróder, ejo iu, ficou solo aí... de entón, bum!&lt;br /&gt;         E tu?&lt;br /&gt;         Fora, fora jo... solo vendo...&lt;br /&gt;         E después la explosion?&lt;br /&gt;         Num, aí jo travessero de nuevo...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;br /&gt;         Bela suspirou outra vez e puxou para trás os dreadlocks esverdeados, amarrando-os num rabo-de-cavalo que parecia uma cachoeira de mandacarus. Sentia que já acordava exausta. E com aquela dor esquisita no útero.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;         Bueno, manito, entón se acabou Sandiliche, vida tipo, vida tipo todo bien.&lt;br /&gt;         Num, manita... tem que achar...&lt;br /&gt;         Achar who?&lt;br /&gt;         Sandiliche, ejo malo, ejo machucado... los trangers cataro ejo...&lt;br /&gt;         Si si, mismo, Luki. Pero no agora, sente? Manita tem que trabalhar. Tu acá, tu acá, todo bien?&lt;br /&gt;         Num, quero ir tu com...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;         .&lt;br /&gt;        &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;         Lágrimas vazaram dos olhos azuis de Luki. Passou um pensamento nublado pela mente da irmã, um azaraton branco, mas foi um segundo só, e logo ela o espantou para catar a rotina nas unhas. Bela pegou a corrente de aço, passou o elo pelo pulso esquerdo do irmão. A corrente tinha uns dez metros: o perímetro da liberdade do pequeno de cinco anos. Pelo menos por enquanto – ano que vem já iria com ela para a usina, separar lixo, organizar, administrar, trabalhar. Beijou-o na testa.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;         &lt;em&gt;Num pode, fica acá. Manita traz los gostosos de la noche, espera. Sandiliche todavia volta, volve... voy...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;.        &lt;br /&gt;         Enquanto desamarrava a pequena lancha de um dos troncos que sustentava sua palafita particular, ainda ouvia os muchochos do garoto. Mergulhou os pulmões no ar de mercúrio e chumbo e plástico, ligou o motor de popa do velho barco e partiu, acenando.&lt;br /&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;         Na janela, Luki espiava a irmã afastar-se no longe dos copinhos de plástico. Unhou de leve a grossa algema no pulso, ela foi esquentando, esquentando, amolecendo... Aí, clic, &lt;em&gt;se abrió&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-114324582274755853?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/114324582274755853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=114324582274755853&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114324582274755853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114324582274755853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/03/2-sandiliche-has-left-building.html' title='2 : Sandiliche has left the building'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-114111069976362445</id><published>2006-02-28T04:10:00.001-03:00</published><updated>2009-12-19T01:56:35.765-02:00</updated><title type='text'>7 : Butthole Kongo é um cliente especial</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Deus. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Deus danou-me. E danou-se. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Deus me jogou nesse mundo embalado num saco de lixo e folhas de uma revista de celebridades do ano anterior. Tive que cortar caminho na porrada. Nasci num 29 de fevereiro. You got to have the feeling as sure as you’re born*. Era Mardi Gras em New Orleans. No leito preto e enterrado do que tinha sido o Mississipi. Na lama seca do sertão que tinha virado o Bairro Francês. Batizado com barro vermelho no cocuruto por um pai-de-santo que me chamava de macaco bundão porque tenho o cu grande e pretopeludo. O resto é tudo branco. O que inclui minhas bastas suíças. E meus bem-cuidados dreadlocks. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Lembrava disso estupidamente aquela tarde em Buenos Aires. Estava ali numa pequena agência do banco WB$. Comendo sossegado minhas empanadas de jamón y queso. Pensando num golpe pra aplacar a sede e a fome por malaguetas y uvas syrah y ojos de bife de mi amada hostess Anjelika Zapata. Eu estava ali parado. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Stay on the scene. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Parado na encolha medindo um velho americano de agasalho esportivo movimentar sua conta bancária no caixa biônico. Parecia que tinha problemas em autenticar sua senha via digital e via íris. Tentou a via salivar. Introduziu na fenda um filete fino e esverdeado, envolto em bolhas de ar. Rios de suor na testa cheia de parênteses arruinados. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;You give me the fever ‘n’ a cold sweat. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;O caixa parecia não ter sacado o lance. Ele ficou puto. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Soltou na escarra-senha outro cuspe. Mais outro. E então um guspo meio sanguinolento. Começou a cavoucar dentro o ranho. Arrancou das catacumbas das vias aéreas um catarro grosso. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Son of a bitch! Son of a bitch!, ele grunhia. Numa bosta de sotaque do Ohio que o parta. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Yo bastard bloodyhound from hell! Show yourself. My money motherfucker of God!, ele conjurava e cuspia. Então mandou um soco na tela. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Dirty nigger son of a bitch! Smelly pussy of a damned cow! By all my fuckin’ nuggets! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Eu só na miúda na esguelha. Comendo sossegado minhas empanadas de jamón y queso. Stay on the scene. Parou. Lembrou súbito da leitura anal. Virou, abaixou o cuecão, suspendeu a bunda, se arrebitou, arreganhou as pregas, fechou os olhos. Yeah. Shake your moneymaker. Concentrou. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;What about that you screwed jew? Kiss my ass yo motherfucker!, e mandou uma bufa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;A máquina nada. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Aí o véio se emputeceu de verdade. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Voltou babando, os olhos cinzentos pulando dos furos da cara. Abaixou a calça. A máquina ia ler a sua porra? Essa eu queria ver. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Vasculhou lá nos confins um pau engelhado do tamanho de uma unha. Deu um soluço fundo. Pensei que ia implodir. Começou a mandar uma punhetinha. Necas. Então a cabeça avermelhada toda. Zoou. Escancarou o bocão e mandou um vômito. Um jato amarelo como nata ordenhada de uma jumenta. Tão fedorento que me enjoou todo e larguei minhas empanadas de jamón y queso. Não fico mareado fácil. Sou do Bairro Francês de New Orleans. Vim de onde já não mais existe. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;A máquina não decriptografou o vomitão do meu compatriota. E fazia tempo que eu não via ninguém do meu país. Ele me lembrava o que mais eu odiava na América. Nesse pobre véio em busca de sua graninha. Me deu compaixão. Minha pátria não tem fim. Vai demorar séculos pra exterminar nossa raça desgraçada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get on up.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;A máquina disparou a apitar. Deu dez segundos. Do nada surgiram dois milicos de preto, a faixa branca atravessada no peito. Lhe deram um sossega-leão com um phaser paralisante. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;La casa cayó, vovozito**!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Um deles lhe tascou um idecoder nos olhos. Plugou dentro dos peludos ouvidos do old papa duas sondas metálicas. Arrancou a língua branca da boca dele. Prendeu ele todo num hipermegaclipes. Os ralos cabelos do gringo se arrupiaram feito neve ao contrário. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Viejo hijoeputa, vagabundón ducaray! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;O milico leu o nome do doidão numa palma da mão iluminada. Bradou alto e monótono pra ele. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Eres Josef Smith! Tu cuenta es bloqueada, pendejo!, disse um. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Tu no pagó los derechos por tu identidad, cabrón safado! Ahora estás en poder del Instituto Tierra de Nunca!, disse o outro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Perdió los derechos economicos, playboy! Tienes derecho a calarte e llamar tu avogado o tu puta mamazita! Pero tienes dos horas hasta el tribunal!, disse um. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Josef Smith! Fodió! Tu hé perdido tus derechos economicos, comprende, loko? Te levarán a julgado en el Territorio de los Cosos! Fuera de Buenos Aires! Fodió! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Virou maneiro e mandou pro outro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Bobby! Should I take ‘em to the bridge? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Go ahead!, respondeu o outro. Take ‘em on to the bridge! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Should I take 'em to the bridge?, o milico bonzinho inquiria o colega.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Yeah! Take ‘em to the bridge!, pedia o outro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;O velho uivava.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Go ahead! Hit me now!, e oferecia a bunda. Don’t take me to the bridge!, batia nas próprias costas. No! No! Never a Thingo! Never a Thingo! No! Please! O Mercy! O Lord! O my Lord! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get on up. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Naquela taquara rachada que era sua garganta me lembrei dos blues fudidos de minha cidade. Me deu um treco. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Eram só dois guardas. Dei um murro simples com a mão fechada no cocuruto do que apontava o phaser. Ele desabou no chão feito um ovo mexido. Quando o outro virou pra mim dei uma carga bem na boca dele. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Cretinos administrados. Cretinos a soldo. Cretinos ciosos. Cretinos biônicos. Cretinos da rotina. Butthole Kongo os libertará de todo o mal. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Right on. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Right on. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Fucei no cinto do milico caído. Fiz o phaser. O do colega também. O véio me olhava fixo. Mas o corpo todo tremendo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Hey man, whassup? Relax!, eu disse. One, two, three, four!, estalei os dedos com swing. E mandei um moonwalkin' ali mesmo no banco, rodopiei num giro horizontal e dei um requebrado sutil. Eu tenho a manha, compay. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Talvez o véio nunca tenha visto um gorila albino dançar. Talvez nunca tenha ficado sem dinheiro. Talvez nunca tivesse escutado um compatriota em Buenos Aires. Talvez estivesse apenas agradecido. Certamente ia me foder na primeira chance. Aos poucos um sorriso de dentes amarelados lhe roía a fuça. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Nojo. Nojo da gratidão. Da pena. Da comiseração. Da perda. Do puxasaquismo. Do perdão. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get uppa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Get on up! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;De um só golpe com o phaser arranquei a cabeça dele. Que fui esmigalhando e enfiando aos pedacinhos na escarra-senha. Na via das dívidas. Por via das dúvidas cortei fifty-fifty os outros dois com o lindo feixe verde da arma. Phaser bom pracaray. Esfreguei as línguas dos milicos no caixa eletrônico. E lhes afanei os sagrados soldos da Milícias Amigas Unidas. 500 contos livres. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Stay on the scene. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Like a sex machine. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Armado e com dinheiro. O Lord. Os venenos do mundo ainda não conhecem teu antídoto. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;We got to get it together. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;Um dia em que você corta três cabeças é um dia ganho. Quem dá aos pobres empresta a Deus. Minha Anjelika vai ganhar um belo jantar hoje. Butthole Kongo. Nascido do barro de New Orleans. Curto e grosso. Lutando pelo seu. O macaco do desbloqueio. O campeão das suas economias. O homem em síntese de banana. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 14.0px Times New Roman"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;The way I like it. Is the way it is.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:'Times New Roman', serif;font-size:180%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 17px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-114111069976362445?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/114111069976362445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=114111069976362445&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114111069976362445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114111069976362445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/02/7-butthole-kongo-um-cliente-especial.html' title='7 : Butthole Kongo é um cliente especial'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-114076590582840364</id><published>2006-02-24T04:21:00.000-03:00</published><updated>2006-02-25T16:54:29.206-03:00</updated><title type='text'>8 : Morro Grande, Rio Pequeno</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Chove.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Baby Gasoline está parada na calçada, em frente ao HellHotel, tendo à sua frente, do outro lado da avenida Ipiranga, a igreja da Consolação, aguardando o hovercraft, já que emprestou de novo sua barca para Zed Stein. Então alguém perde o controle de sua barca no começo do canal da Consolação... e vai se embucetar no muro de um prédio. Exatamente agora. Alguém se fodeu, Baby Gasoline pensa... caralho... e que estranho, nas minhas orelhas a Nico está cantando “The end”... acho que estou ficando louca... Aperta o lóbulo direito e desliga o shuffle do innersound, virando o rosto para não ver o sangue que começa a vazar da porta entreaberta da barca porrada, tingindo as águas barrentas do canal de vermelho. E dá de cara com o letreiro do barcão&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MORRO GRANDE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;Estende o indicador circundado por um anel que lembra duas serpentes cruzadas em lemmiscata. Um presente de um amigo, um tal de Escher. Um grito em seus ouvidos, Nico. Tudo tão claro. Sobe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Quem estaria naquela barca? Nunca vou saber, pensa Nico, vendo as viaturas da Milícia Central chegarem, no meio do chumbo do trânsito chuvoso. Uns corpos são enfiados dentro de sacos. Olhando por cima de seu pescoço, Adavilson Félix Tristão sente um arrepio, acompanhando a cena. Ele pode ouvir – e talvez a garota ao seu lado não possa – que agora os sinos da igreja da Consolação começaram a tocar. Exatamente agora. Meio-dia. Talvez, a menina aluada ao seu lado esteja escutando um newaxé ou um tango a go go ou pior, uma bossa proibidona. Mais um engano, ele pensa. Adavilson detesta enganos. E pensa em quem poderia ter sido a pessoa no carro. Talvez, alguém sem seguro de vida, um idiota que não poderia nem aproveitar a própria invalidez. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Adavilson daria uma perna por uma vida melhor. Com toda a certeza. Ele mal usa as próprias pernas. Talvez, desse o pau em troca de uma casa com piscina e uma mesa Psico, estoques intermináveis de baconzitos e muitos baldes de cola, os quantos quisesse. Ele trabalha no setor das palavras cruzadas hipnóticas, uma salinha idiota e esquecida no 13º andar da TXT, a sede dos jornais da cidade, no bairro de Pinheiros. Tinha ido ao centro da Cidade-Olho pra caçar referências de cruzadas do século passado em alguns sebos que resistiam na Liberdade, e agora voltava para seu trampo – trinta quilômetros depois do homem que se espatifou num poste no centro [e que agora, doze horas depois, estaria desenvolvendo seus primeiros passos dentro do rigor mortis, caso não fosse cataléptico e seu coração batesse tão pouco e baixo que nenhum médico poderia ouvi-lo, nem mesmo ele poderia ouvir o próprio coração, deitado nu em uma mesa do IML com um papel espetado no pé. Daqui a pouco, os legistas o meteriam no freezer, junto com as geladas que eles costumam tomar, depois do trampo, às 7 da manhã]. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Baby Gasoline fica bem puta em ter de dividir o sacolejante banco do barcão com um sujeito de terno que não pára de olhar pros seus peitos. O problema não era que olhasse seus belos peitos estrábicos de mamilos oitenta e cinco por cento magenta dez por cento ciano e cinco por cento amarelo [ela mesma escolheu a combinação de cores no Neverland], mas que ela não pudesse soltar aqueles pernões para os lados, relaxada, confortável, como sempre fazia, antes de ler algum livro ou meramente descansar o rosto no vidro enquanto acompanhasse o caminho das gotas descendo para trás, insufladas pelo vento contínuo que corroía os poros e os mármores mais duros dessa cidade, escorrendo sobre os rostos das pessoas que andavam na chuva lá fora, e outras pessoas dentro de outros barcões, outras barcas. Quantas pessoas já terei visto na vida?, se perguntava Baby Gasoline. Será que algum dia vou pensar nesse idiota aqui do lado, ela esguelhava seu companheiro de barcão, quem seria um sujeito como este, se não talvez a própria morte? Um sujeito igual ao outro, esse sujeito igual a si mesmo desde que é outro, o mesmo, a morte é sempre igual, a mesma idêntica merda. Sim, seria ele o sinal da vinda da morte sobre aqueles corpos cuspidos da barca que ficaram lá para trás. A morte, como esse cara aqui, é careca, provavelmente rouca, hálito azedo e humor cinzento. Seu cão-deus vive doente, fala números de modo lento, usando uma camisa cor de rosa e relógio dourado de design obscuro – ela continua a olhar para dentro das gotas que escorrem no vidro, auscultando os minúsculos seres vivendo em cada resto de água em filetes aqui, ainda a guardar a memória do vapor e do gelo, as glaciações e as secas, a memória da cheia e da fome, como rugas do tempo dessa cidade, rugas em filetes mudando de formas, as rugas dessa cidade nos vidros dos barcões que navegam o Estuário, filetes que se unem tecendo múltiplas camadas como teias de uma aranha esquizofrênica. O tempo, o tempo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sim, porque o tempo funciona de maneira diversa para gente como ele. Mais devagar. Como se fosse árvore de cidade do interior, ele pensa, o olhar perdido nas ondas beges e marrons que chupavam o alumínio do hovercraft em que estava. A novidade é a morte. A florescência de números alheios que em um deserto esculpe o nada. Por isso ele cria palavras cruzadas. Por isso ele cola números brancos em papéis pretos, todos os dias – um hobby, porra, como qualquer outro. Ele já tinha conhecido um sujeito que colecionava gavetas, outro que lambia azulejos, um terceiro lia mensagens satânicas nas canções da bossa nova do século passado, porra, porque não poderia fazer algo assim? Adavilson Félix Tristão odiava-se. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E Baby Gasoline captava este ódio em seu innersound. Chega, Nico. Desligou o som e subitamente foi invadida pelas conversas das pessoas no barcão, a chuva batendo forte no teto, o bafo era audível, até mesmo o hálito da morte, sentada ao seu lado, ela escutaria. O cara tinha aberto uma revista. Parecia quadrinhos. Havia um ser verde e um outro que parecia uma múmia, e também uma mulher de cabelos brancos. Ela não queria que essas pessoas invadissem o seu pensamento. Sua mente deveria ser um lugar puro, mas ela estava o tempo todo emporcalhando cada vez mais o ambiente. O certo era somente se dedicar à imaginação, onde histórias a fossem construindo de dentro para fora, e que se dane o que existisse fora, nem se fosse a própria morte sentada ao seu lado numa rotineira viagem de ônibus ela deveria interromper a serenidade de sua imaginação interior. Ela queria mesmo era encontrar aquele estado denso e obscuro entre o nada e o nada que envolvesse o corpo frio daquela mulher deitada na mesa de dissecação no IML. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas não era uma mulher, era um sujeito careca, com um fio solitário que saía do cocuruto e vinha bordejar a franja envirgulado e sebento, grudado nas dezenas de rugas em paralelo pela testa cor de café. Desceu na Vila Madalena. Adavilson, subindo o estuário na direção do distrito de Rio Pequeno, continuava a observá-la com o rosto colado na janela. Ele queria mesmo era trabalhar em um banco, contando dinheiro, talvez o próprio WB$, se esconder pra sempre debaixo de uma subsubgerência. E ter como hobby não colar números em branco sobre papel preto mas manter um zoológico só de mouseons, pidrats, azaratones. A mistura de pombos com ratos que um hacker em algum laboratório genético virtual havia criado e alastrado pelo planeta, como uma nova praga do século. Compridos, esguios, se escondem em tubos. Rastejam e voam. Alguns até falam. É o que dizem. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Enquanto observava pela janela o vôo e a pesca dos azaratones que infestavam o bairro de Pinheiros – a Companhia de Animais Silvestres não conseguia exterminar a todos, eles eram invencíveis e pareciam se multiplicar tanto quanto os Coisos – Adavilsson Félix Tristão pensava na felicidade em alimentar todos os dias seu tanque de azaratones, conversar com eles como quem se confessa no psicanalista. Talvez, se os alimentasse com carne de Coiso, eles não virariam algum outro bicho? Afinal, os humanos só viraram gente depois que se comeram um pouco entre eles. O raciocínio deveria valer pros azaratones. Em especial os que já conversam sobre jazz, literatura contemporânea ou conheça as novas coleções de outono-inverno feito com couro de... azaratones. Você já viu como eles fazem para tirar a pele ultraresistente de um azaratón? Arrancam as asas – as penas não servem pra nada – , vão dando várias porradas no bicho, pra pele ficar mole. Aí carneiam a besta [preferem os gordões, de trinta quilos, quarenta quilos, e as azaratonas grávidas, dizem que os hormônios deixam a pele ainda mais dura] viva. Do crânio ao rabo. Depois dão o resto pros Coisos fazerem churrasco. Adavilsson tinha ouvido dizer que já havia restaurantes da moda servindo sofisticadas iguarias a partir de azaratonas grávidas. Incluindo os fetos. Tenros, eram servidos com feijões do deserto de Góbi e trufas subsaarianas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Adavilsson sabia coisas demais. Afinal, este era o seu trabalho: descobrir novas palavras e significados ainda mais obscuros para criar as palavras cruzadas mais vendidas na Cidade-Olho. Assim como ele tinha o hobby de colar números brancos sobre papéis negros, havia milhares de pessoas ali que compravam as palavras cruzadas psíquicas da TXT. AFT criava cruzamentos em três dimensões, várias linhas se cortando de baixo para cima, da esquerda para a direita, de dentro para fora, e estudava uma maneira de criá-las em quarta dimensão. E suas palavras ficavam cada vez mais próximo do místico, do esotérico, do obscuro. Parecia que os tolos não compreendiam a expertise de suas PCPs como o altar para preces bizarras, o modo como as via. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;RIO PEQUENO&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E assim, com esse resoluto prazer, pensando em seu pequenino trabalho de ourives anônimo, o hovercraft estacionou na rampa de acesso à TXT. Tirou o saquinho com cola de dentro do casaco e cheirou fundo, pouco antes de cuspir na recepção e ter liberado o seu acesso ao grande edifício de setenta e cinco andares. No mesmo momento, Ray Borg se levantava nu da gaveta no necrotério. Ainda um pouco zonzo mas sempre com sede, pegou uma cerveja, abriu na fenda do armário e mandou ver. Mais aquecido, mas ainda com frio, pegou um avental ali jogado numa cadeira e, sem ser importunado, saiu caminhando do IML pela porta de frente. Mal sabiam os Ray, Adavilsson e Baby Gasoline que estavam unidos por uma mesma linha reta que atravessava Pinheiros, da Doutor Arnaldo à Marginal Pinheiros, ultrapassando a Vila Madalena e sete cemitérios, onde os mortos se desfaziam na água que corroía tumbas, caixões, granito, mármore, aluvião, concreto, corações. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-114076590582840364?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/114076590582840364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=114076590582840364&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114076590582840364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/114076590582840364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/02/8-morro-grande-rio-pequeno.html' title='8 : Morro Grande, Rio Pequeno'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-113780653260784160</id><published>2006-01-20T23:19:00.000-02:00</published><updated>2006-01-20T23:22:12.636-02:00</updated><title type='text'>1: Sonhariam os tubarões com pretinhas elétricas?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Nós velamos o sono da Cidade-Olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bispo ali, ó, na terceira, você sabe onde.&lt;br /&gt;– É? Tolinha. Xeque.&lt;br /&gt;– Merda. Sempre me saio mal com as brancas... Tá, cavalo na quinta.&lt;br /&gt;– Mate! Bom, vou dormir...&lt;br /&gt;– Fica mais um pouco!&lt;br /&gt;– Não, Hannah, chega! Hoje, vou sonhar. Meu trabalho...&lt;br /&gt;– Ah, humanos. Como se cansam fácil...&lt;br /&gt;– Fica reclamando muito dos humanos que eu escondo teu estoque de pretinhas... E aciono minha mesa e baixo uma latinha de Bonzo. Você come qualquer coisa, mesmo, sua vadiazinha.&lt;br /&gt;– Grosso. Tá legal, vai dormir...&lt;br /&gt;–Ah, ficou bravinha, é? Tá legal, não suporto ver mulheres chorando. Só mais uma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nasci, Hannah já estava aí. Assim como as minhas rugas. Minha face picotada em espirais – derme de melanina zero, depois do acidente –, na testa cinco fileiras de parênteses, indicando as entradas nos permeios dos cabelos brancos. Meu perfil romano que remete a um Calígula de bairro, louça rachada. Sou um médium, uma moeda, mero escravo, enfim. Tive de acreditar no que me disseram: que sou monitorado 24 horas; que meu trabalho é entregar uma predição por dia; que sou um Agente há vinte anos, e certo dia tive um acidente e perdi minha memória; e que não posso me encontrar com esse passado, se não morrerei novamente. Então, quando nasci, Hannah já estava ali. Onçando-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Xeque mate.&lt;br /&gt;– Você leu minha jogada nas minhas costas.&lt;br /&gt;– Nada disso. Eu não trapaceio...&lt;br /&gt;– Como posso ter certeza disso? Sou eu quem está presa aqui, não você.&lt;br /&gt;– Eu também estou preso, esqueceu?&lt;br /&gt;– Você não passa de um bunda-mole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E escapou para trás dos sargaços do canto esquerdo do aquário, onde ficou ondulando para baixo e para cima, de leve, mas sem parar, como fazia quando estava irritada. Até mesmo tubarões-tigre hermafroditas e videntes têm necessidade de alguma privacidade. Apago o xadrez na mesa de deliverâncias modelo Psico 5 e penso no que fazer em seguida. Apesar da rotina entediante, feita de predições, conversas mentais com o grande peixe e comunicações de emergência com os outros Agentes da Divisão, sempre acho alguma coisa pra me divertir.&lt;br /&gt;Do outro lado do aquário – inteiramente colado à janela deste apartamento de dois andares –, suspensa no topo do edifício do Banco, há uma porta branca, iluminada, fria, trêmula luz na água, como se suspensa sobre a Cidade-Olho, entre os ruídos dos carros, dos ônibus, do vôo dos helicópteros, aviões, urubus, e os assassinatos lá embaixo; seriam somente uns vinte e cinco passos até ela. Mas, entre nós, há Hannah.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O tubarão-tigre que é a emanação da Mnemomáquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Filmes preto e branco do século 20&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ligada às águas da Cidade-Olho, a MMM controla a memória do oxigênio e do hidrogênio – e, assim, tem acesso a seu futuro. É o triunfo da magia da Divisão. Talvez, o que nos une, quem sabe. Segundo o Evangelho do Sentido, estamos, Fabrizio Fabrizzianni e Hannah, protegidos do inferno lá fora em uma concha de cristal que vaga pelas microondas do Caos – Moby Dick e Ahab numa só embalagem. Mas é seguro aqui, e tem alguns confortos. Enquanto degusto uma lasanha aos quatro queijos que baixei do Gigetto, um restaurante que havia nas redondezas –  século passado  –, sempre mando uns filmes na minha Psico 5... Quando não tenho o que fazer, desço, digo, subo, aqui para o trigésimo segundo andar do meu edifício, uns filminhos recombinatórios.&lt;br /&gt;Gosto muito de Casablanca, taxem-me de neobrega ou seja lá que gíria nova exista [é difícil aprender as gírias de agora, já que a Divisão me proíbe de sair e andar nas ruas, mas afinal, minha crônica fixa esse texto em um lugar determinado do tempo; e é este o meu gol, arpoar o tempo e puxá-lo para dentro do navio, expor-lhe as entranhas, fazer hambúrguer de sua carne, torná-lo tão cotidiano quanto um pão: um pão em sua mente nunca poderá apodrecer], mas adoro fazer o Rick ser obrigado a vender seu bar para traficar armas com o general Rommel de sua base no deserto da Etiópia, onde, pouco antes da derrota do Afrika Korps, quando Bogart encontraria ruínas de um templo dedicado a Rimbaud – um dos mais antigos Agentes Não-Lineares, vocês sabem –, assim como também me divirto em mandar Dooley Wilson escorrer outro chupão na prexeca da Ingrid Bergman&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Play it again, Sam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;, levar seu piano para abrir um puteiro com a ex-madame Lazlo em Casablanca, onde às sextas-feiras, à meia-noite, aquele capitão Renault finalmente soltaria a franga sob seu bigodinho para se transformar na drag queen Sodorra, uma freira que costuma fazer strip até virar uma rainha diaba, e depois ficar totalmente nu, só de tapa-sexo, no show Sodoma e Gomorra no Deserto, tudo isso ao som da Marselhesa, claro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Depois que escrevo isso, me vejo olhando fixo para o sexo de Hannah.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Esse clasper não combina com ela. Os diretores da Divisão deveriam ter lido mais sobre mitologia grega e simplesmente batizado o tubarão com o nome de Tirésias, pra que o bicho se conformasse com sua ambigüidade... Assim, quando quero irritar Hannah, lembro de seu duplo clitóris gigante, e a chamo de Otto. Ela fica puta. Mas pensem bem, se estamos só eu e esse tubarão andrógino nesse aquário, quem mais eu poderia encher o saco?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;– Vá brincar com suas barbataninhas pélvicas – sussurro pra ela. – Se não, vou morder você toda, arrancar pedaços de suas malhas e lambuzar você com gel de plâncton tailandês transgênico que os albaneses lá embaixo vendem nos mercados negros, sua menininha suja...&lt;br /&gt;Ela se esconde por trás dos sargaços, envergonhada, ou com tesão: nunca se pode compreender os tubarões adolescentes... Algum tempo depois, também eu fico sem graça. Lembro-me de que sou um velho de quase sessenta anos, preso nesse apartamento no velho edifício Copan, na moribunda São Paulo, assistindo a filmes velhos e fazendo piadas com um tubarão enquanto tento emular as gírias de lugares onde jamais poderei ir.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Enquanto escrevo isso, vem uma tristeza e resolvo apelar para uma rádio que toca velhos blues. Vocês sabem: aquele tipo de música que se ouvia muito na primeira metade do século passado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E aconteceu uma coisa estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pacto com o passado&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;De tempos em tempos, se ouve o slogan da emissora acompanhada de sua vinheta, Crossroads Radio One, uma rádio de New Orleans, aquela cidade que havia na Louisiana antes da Grande Glaciação de 2035. Mas nunca se sabia quando – não havia uma hora certa, era uma coisa totalmente aleatória, vinda de um arquivo randômico dentro da gigantesca máquina-música de uma rádio desaparecida há dezenas de anos, quando ainda se usava a internet, a estação remanescendo nas raras falas do locutor que já teria morrido, hoje rediviva em minha Psico 5. Mas percebi que, como era meia-noite, supunha-se que surgisse o tal Mestre do Caos, atrás de pactos com o Sentido, conforme eu li em um livro antigo... Daí que a música acabou e entrou a vinheta, com a voz de Robert Johnson afanhando I went down to crossroads, and I got down in my knees, o clássico dos pactários. Sim, com certeza era uma mensagem sobre algum tipo de trato.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;No entanto, no que vi as horas no relógio, já eram duas e quinze. Não consigo me lembrar absolutamente do que aconteceu nesse meio tempo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Daí decidi escrever. Pra me acalmar. Ou virar logo tudo em nervo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ainda me recuperando desse susto, sem saber o que fazer – não escrevo faz décadas, minhas mãos duras ficaram tanto tempo em um hospital, fechadas, enquanto me recuperava do coma – , aproveito para baixar a ração de Hannah/Otto na mesa. Está cada vez mais exigente: deu para só comer garotinhas Coisas pretas de sete anos de idade, catadas ali mesmo debaixo, do tanque da Praça da República. Tenho de controlar seu apetite, porque ela não pode crescer mais que seus dois metros e meio. O problema não é caber no aquário – era não conseguir mais dar seus piques de 100 km/h de um extremo ao outro do aquário de 50 m2. Afinal, peixes costumam comer até explodir, e, até onde eu sei, apesar de tudo esse monstro aí ainda é um peixe. Levo o embrulho de garotinhas já fatiadas aos poucos, dois quilos por vez, o que não deixa de ser uma forma de me exercitar; rasgo o saco com um grande punhal marinho – artesania que usou um dente de tubarão-branco –, e o deposito na mesa imersora, que desce e penetra no aquário.&lt;br /&gt;Hannah irrompe veloz de sob os sargaços, furiosa. Abre sua boca em um ângulo tremendo e passa a retalhar a água com sedimentos vermelhos e negros, mastigando a carne humana com suas cinco fileiras de dentes perfeitos, implacáveis. Depois que descarrego sua comida, tarefa que dura cerca de meia hora, Hannah aos poucos se satisfaz e contém seu ímpeto guloso. Aquieta-se, e então põe-se a produzir belos arabescos na água turva, lenta, docemente desenhando círculos e espirais laterais, agradecida, quase sem respirar – ela precisa nadar para respirar, lembrem – , e intuo um sorriso em sua bocarrona... sua vagina dentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Papel na água&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu, Fabrizio Fabrizzianni, escrevo nessas páginas de papel, usando tinta retirada de antigos polvos, com esse péssimo estilo sem a menor personalidade literária – sou um vidente, não um escritor –, lembro-me do que li em um livro holográfico: de que em outro tempo as pessoas espiavam os diários umas das outras em uma atrasada máquina de silício. Hoje, ninguém mais fala de si mesmo, talvez porque não existam mais pessoas com uma Personalidade Única, depois do Grande Incêndio dos RGs, circa 2037... quando a Divisão dos Não-Lineares foi a única organização política que permaneceu ativa, buscando reconstruir um sentido, enviando seus Agentes para ordenar o Caos induzido pelas Personalidades Intercambiantes.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Meu trabalho consiste nisso: enviar mensagens que leio no futuro aos Agentes do passado, para, quem sabe, melhorar esse presente absurdo em que vivemos hoje, 2055. Então, fico sempre espionando à frente para advertir o porvir – mas meu presente mesmo, este em que vivo, não passa de um deserto marinho, tudo o que posso contar às pessoas que virão depois de mim, depois que meu trabalho terminar e, finalmente, eu puder descansar entre céu e sal...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O mais estranho é que resolvi relatar essas coisas para vocês – mas não consigo ver esses meus papéis no futuro. Não consigo enxergar as anotações – quando tuno esse pensamento, o oráculo só me responde com ondas tranqüilas, o mar aberto, imenso azul: é como se o tubarão tigre se tornasse cristal... Então tenho medo que Hannah/Otto, minha única companhia, tenha desaparecido, aí: mas, subitamente, quando esse medo me eriça os pêlos sob o pijama, meus olhos retomam o vulto cor de Jack Daniel’s do grande peixe, e ela como que dá uma gingada para o lado –, e, não tivesse pálpebras, poderia dizer com certeza que me deu uma safada piscadinha.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Já tentei, outro dia, no Momento, às cinco da tarde, o sol caindo ao meu nordeste e invadindo meu largo apartamento de reflexos amarelos, alaranjados, lilases – e meus olhos tuniriam no Rubi. É neste segundo em que minha mente é acionada pela MMM, o instante em que Fabrizio e Hannah, olho e luz, se tornam um só Oráculo: nos saltos de Hannah, precisamente às cinco da tarde, quando os raios do sol se pondo através das camadas de poeira e grãos de fuligem da inversão térmica de inverno e o vidro blindado e as águas se refletindo nas guelras de Hannah, nas malhas de Hannah, no dorso de Hannah, em cada uma de suas nadadeiras de cartilagem, onde quer que o sol lambesse seu dorso macio, meus olhos também a lamberiam, a perscrutariam sanguessugas, meus nervos à flor de sua pele, e a cada intervalo entre branco, negro e amarelo-ouro, eu a tunisse uma letra, um caractere, um rascunho de símbolo da escrita do Sentido, e afinal lesse na carne de Hannah o que está escrito desde que a Cidade-Olho foi fundada – até seu afundamento.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tentei tunir meus próprios escritos no futuro, nas malhas translúcidas do tubarão, em esgares e estrias entre negro e dourado. Mas nada vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ostranenie&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Deve existir um mundo em que pessoas conversam olhando uma para a outra. Me desculpem, meu mundo é este: escrever garranchos em papéis velhos e balançar de leve pra lá e pra cá em minha rede vermelha, enquanto Hannah/Otto desliza graciosa seu corpo monstruoso nos 50 metros quadrados de água salgada sempre renovada, nossos pensamentos cruzando-se nas borbulhas que saem de suas brânquias ou no hausto que minhas narinas fremem. Talvez não seja questão de reclamar. Enquanto lá embaixo as bombas explodem e a água sobe a níveis cada vez mais terríveis, engolindo as pessoas em uma morna chuva por todos os lados, morar aqui com todas as despesas pagas é até um presente. Talvez pudesse ser como as outras pessoas do meu tempo, meus imagéticos contemporâneos que só se preocupam com seu presente já esquecido em segundos... Entanto – mesmo que elas tenham a memória delas guardada em fatos ou objetos e recordações e eu seja um cientista recém-nascido de 55 anos a que só é permitido olhar à frente de seu tempo – não as invejo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O que vejo não é perfeito. Mas é meu.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tem uma coisa que me preocupa. Às vezes, Otto/Hannah sonha. E quem sonha vê o passado. Um dia, quando estiver lendo nas malhas do dorso tigrado do tubarão que sonha o futuro da Cidade-Olho, poderei ver talvez ali aquele que fui um dia. Por isso tento sonhar, para sonhar com o tubarão que sonha, e divisar, afinal, meu passado em seu corpo. Então verei meu retrato. É só uma suposição, mas não me canso de tentar alcançar a pérola do meu tempo perdido.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Uma ostra ninando sua pérola. O sonho seria isso, um círculo perfeito, calcáreo... E por trás de tudo as luzes da cidade se apagam, diamantes desfeitos no açúcar ou no câncer... A pérola é aperfeiçoada pela morte demorada e torturante da ostra, a “morte lenta” dos antigos mafiosos sicilianos: uma bala no cu. Quando uma partícula de areia ou sujeira entra na casca da ostra, se agarra lá dentro, trazendo muita dor. Nesse processo a ostra solta uma secreção que se forma sobre a ferida, o que vai a enfraquecendo e fazendo com que ela produza ainda mais secreção calcárea – aí, a pérola. Ela tem essa cor branca azulada pois é formada de camadas, dores sobre dores... Mas só é conseguida pela morte da ostra.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A memória se auto-caleja. Assim é que, quando nossa memória se torna uma pérola, nós morremos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Do outro lado do aquário, suspensa no topo do edifício do Banco, há uma porta branca, iluminada, fria, como se suspensa sobre a cidade, entre os ruídos dos carros, dos ônibus, do vôo dos helicópteros, aviões e urubus e os assassinatos lá embaixo – seriam só uns vinte e cinco passos até ela. Mas, entre nós, há Hannah.  De modo que decido pedir outra lasanha. O tubarão me olha. Sinto que quer mais uma partida. Desta vez, vou deixá-la jogar com as pretas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Daqui a uma hora, o sol se põe. E virá um novo Momento. Meu trabalho me espera.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-113780653260784160?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/113780653260784160/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=113780653260784160&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/113780653260784160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/113780653260784160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/01/1-sonhariam-os-tubares-com-pretinhas.html' title='1: Sonhariam os tubarões com pretinhas elétricas?'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-113748237767399738</id><published>2006-01-17T05:18:00.000-02:00</published><updated>2006-01-17T05:20:22.946-02:00</updated><title type='text'>16 : A psicologia dos icebergs</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;De novo acordar que teve outra vida. De novo lembrar ter avistado a si por de sobre, detrás do ombro. O sonho fugidio, sabia, já tinha sentido isso diversas vezes, nasceria e se apagaria no fim desse mesmo dia, feito flor de cacto. Sentir saudade de uma mera amnésia, não lembranças fragmentadas que nunca formavam senso. Seu trabalho, seu trabalho... o que fazia mesmo? Quem era aquela mulher ali na cama? Onde havia estado ontem? O que fazer com aquele envelope sobre a mesa? De quem era aquela foto que carregava na carteira? O que ele gostava de comer no café da manhã? Por que seu pau coçava tanto? Na cozinha, a luz do sol batia em cheio no café velho numa xícara desbeiçada, filtrada num cilindro de canela. O café ali desperdiçado desde quando? Por ele? Aquela casa era sua? Se fosse, de onde teria vindo a obsessão por holofotos de machos pelados nas paredes do armário da cozinha? Bom, se isso não o excitava, ele ainda não havia enviadado. Sintonizava pela janela a transição intermitente das nuvens entre carregadas, brancas, cúmulos, cirros, nimbos, clarões e esgares do sol negro de cada dia, furando as retinas nalguma lucidez que ele já não conseguia verbalizar – e por trás de tudo as luzes dos prédios a tornar tudo eterna noite laranja. Como se vivesse numa ação imóvel e ao um tempo incessante, seu sangue era um hamster numa roda da fortuna.&lt;br /&gt;– Zed... você já acordou, meu amor?&lt;br /&gt;Meu amor? Que horas eram? Qual seria o seu compromisso naquele dia? Por que ninguém da Divisão o procurava nunca? Seu pau coçava, vermelho, doía, as pernas meio bambas e um perrengue inchava no pescoço.... Triscou a mão, que voltou com um teco de sangue pisado. A Divisão. No centro do ar viscoso de todo dia, dor no pau aos poucos virava tesão. Merda, devia mesmo ter saído com os nervos divididos de fábrica, peixe elétrico tomando choque da água. Uma sensação de fome podia trazer alegria, uma porrada na cara reativaria uma lembrança de um algodão doce em um obscuro parque da infância. O nariz captou o aroma de pó de café, sim, gostava disso, e ali havia uma cafeteira do início do século, genuinamente italiano produzido na China, valeria uma nota na Benedito Calixto. E funcionava. E lá do quarto veio um espreguiçar seguido de um gemido delicioso, longamente, com uma nota triste no fim, sustenida. Sentiu os pêlos da cara se elevarem elétricos. Precisava se ligar à Mnemomáquina de algum jeito nessa porra de cidade. O matreiro mandamento da Ordem dos Agentes Especiais Não-Lineares: a perigo, buscar a MMM. Algo impresso numa maldita caverna de seu DNA. Pelo menos isso a Divisão tinha feito por ele. O que imporia a Zed mais a psicologia de um iceberg à deriva que a de um barco sem rumo. Ligou a cafeiteira.&lt;br /&gt;Do lado da xícara, um laser. Hum, começava a fazer sentido. Bela arma, cabia direitinho na mão. Será minha?, pensava. Bom, algumas peças se recompunham, devagar, bom. Abriu a janela, ergueu-a contra o céu, nos ouvidos os chiados termostáticos das águas do estuário batendo nos muros dos prédios, as barcas, os turbocópteros... e as psicopombas, aqueles seres que transitavam entre o pântano do esgoto e as alturas das nuvens de merda que não paravam de chover sobre a Cidade-Olho. Uns quinhentos metros à frente, um monolito violáceo. Aquele edifício parecia querer dizer algo a ele. Dali emanava uma energia estranha... Suavemente, saxofones sequazes nos ouvidos o puxavam para uma tarefa a fazer, uma tarefa a fazer; encontrar Sal. Quem era Sal?&lt;br /&gt;Há quanto tempo estaria acordado?&lt;br /&gt;– Querido, que horas são?&lt;br /&gt;Querido? Que história é essa? A mulher que era sempre a mesma e outra. Aquela que entreviu, no reflexo de seus olhos, a si mesmo. E de novo lembrar de ter se olhado como naquele sonho fugidio, que, sabia, já havia sentido diversas vezes, a se apagar no fim desse dia, uma flor de cacto que sopra palavras entre dentes, escapando junto um hálito familiar. Mas enfim, no tampo de um galley horas digitais vagavam em LCD, nubladas como névoa de cigarro, 5h27 e TEMPO INSTÁVEL. Ou seja, praticamente madrugada, apesar de o sol já nascido, horário de verão a que nunca se acostumava. E Zed pensou que madrugada era uma das mais belas palavras da língua, desta e outra – inside drug the madam.&lt;br /&gt;Sim, afazeres. Banheiro. Chuveiro. Cigarro. Numa gaveta do banheiro achou um cortador de unhas e, sobre uma cadeira, roupas. Só podiam ser suas. Só usava roupas pretas. Eram mais fáceis de lavar. E de lembrar. Nunca se esquecia de suas roupas – era um passo e tanto. Recordou então, num flash, uma estada em Hong Kong, quando teve de escapar por uma janela de uma kitchinette completamente nu. Uma garota morta jazia em lençóis vermelhos, não se sabia onde começava o tecido e terminava o sangue. Ele nunca descobriu seu nome, ou se tinha terminado com ela.&lt;br /&gt;Mas essa aqui estava bem viva:&lt;br /&gt;– Eu também quero café!&lt;br /&gt;Pegou duas xícaras e levou até o quarto. O café era maravilhoso, o que fez com que seus olhos lacrimejassem, emocionado, sentado na ponta da cama, contemplando os seios esféricos, de mamilos rosáceos, cítricos ou carmesim – a luz vinda pelas frestas da janela a cada minuto mudava de cor –, que orbitavam sob os olhos translúcidos da ruiva recém-desperta, ainda imersa na suada nuvem de um sonho.&lt;br /&gt;Tinha acordado em seu próprio corpo, mesmo, tinha certeza disso? Lembrou-se da seita dos Fuleiros, que desenvolviam esquizofrenia mesquinha, roubando fiapos de memórias alheias, e louvavam o Deus Jegue. De repente a música voltou a fazer sentido. O nome explodiu em sua mente como uma felicidade secreta: Mulatu Astatke. Jazz etíope do final do século passado... de onde viria os saxofones subindo e descendo em curvas orientais, nublados pelo tremulante de uma guitarra em dub/wah, de onde se desvendava um esqueleto duro entre salsa e funk? Os Fuleiros pegavam manias emprestadas e transformavam em suas próprias, e alguns deles até afanavam mesmo o nome de terceiros. Mulatu Astatke. Era o som que vinha do emissor ao lado do leito. Ele queria se chamar Mulatu Astatke, não Zed Stein. Pelo menos teria alguma utilidade para o mundo.&lt;br /&gt;– Muito boa sua cama. Eu tava mesmo precisada de dormir... ah, um café desses é tudo de bom... muito obrigada... – a mulher desceu os lábios na xícara, o perscrutando com radiosos olhos negros, inquietos sob sobrancelhas grossas. Não fosse o cabelo vermelho, pensaria uma iraniana. Sua cama! Então aquela ali era mesmo sua casa. – A gente dormiu o quê, umas trinta horas seguidas?&lt;br /&gt;O sono.&lt;br /&gt;Lembrou-se do conselho de Mark: dormir por mais de um dia inteiro era pernicioso – poderia levar sua memória embora para sempre. Bom, era um alívio se recordar de um conselho – e de Mark. As coisas vinham voltando como um fio de Ariadne percorrido ao contrário. Tinha conhecido aquela garota numa festa, logo após ela enfiar uma hóstia de cristal na língua... Baby, Baby Gasoline.&lt;br /&gt;– Tanto assim? Por que a gente se cansou tanto?&lt;br /&gt;– Talvez a gente estivesse fugindo... correndo...&lt;br /&gt;Agir cego, desconfiado de todos. O que havia começado primeiro, a paranóia ou a amnésia? Largou a xícara no tatame que cobria toda a extensão daquele quarto... Tinha algo urgente a fazer, sentia nos poros tipo agulhas.&lt;br /&gt;– Acho que vou levantar, tomar um banho... trabalhar. Hoje é sábado ou segunda?&lt;br /&gt;– Se te falar que não sei, você ia achar que eu estou mentindo?&lt;br /&gt;Ela sorriu. Tomou outro gole do café, sempre aqueles olhos muito pretos, redondos, com uma auréola castanho-esverdeada saltando no interior, cravados nele entre o sacana e um leve desespero.&lt;br /&gt;– Ah, sim, bonito... O seu problema. Viu o prédio rosa em frente? Nós vamos para lá.&lt;br /&gt;– O Neverland? Não sei se é uma boa idéia... – Por que havia falado isso? Parecia que nascia de sua própria língua. Há um minuto não sabia que aquele monolito era o Neverland. Talvez, se começasse a falar e não parasse nunca, fosse se lembrando de sua existência até o berço... – Você não tem uma mesa Psico? Acho que era melhor acessar o Neverland via rede... não queria ter de entrar ali de corpo presente, saca? Pode ser perigoso...&lt;br /&gt;– Por que não acessa da tua própria mesa?&lt;br /&gt;– Minha mesa?&lt;br /&gt;– Sim, por que não? Se esta aqui é a tua cama... – e apontou uma mesa triangular, logo atrás dele, em frente à cama, grudada à parede, dez centímetros por dois metros de largura. Ele sentiu certa familiaridade com o móvel. Sua mesa.&lt;br /&gt;– Ah, sim... – e se voltou, usando a cama como cadeira de trabalho. Uniu as pontas dos dedos das mãos e concentrou-se.&lt;br /&gt;Mas não vinha a senha pra acessar a Psico.&lt;br /&gt;Detrás dele, rompeu o riso sarcástico da dama.&lt;br /&gt;– Incrível. Você não sabe mesmo onde está? Qual o número do seu apartamento, falaê?&lt;br /&gt;Ele se virou para ela. Soltou o ar dos pulmões enquanto abaixava os ombros e pensou em Mulatu, Mulatu... dali poderia vir uma recordação e todo o resto que a circunda, a música como uma esponja para todo um período de tempo... teria estado na África?&lt;br /&gt;– Não, honestamente, não.&lt;br /&gt;Surgiu algo diferente nos olhos dela. Uma espécie de contemplação longínqua, ardilosa talvez, ou pior, um tipo de pena.&lt;br /&gt;– Vamos lá, moço bonito. Isso acontece nas melhores famílias. – Estendeu a mão até ele. – Baby Gasoline. Meu nome é Baby Gasoline. Agora, você diz...?&lt;br /&gt;– Zed Stein – ele riu, seco, estendendo a mão a ela, pressionando com leveza os dedos mornos dela. Os seus suavam. – O meu nome eu ainda lembro. Espero que não seja uma rua num gueto judeu, a última coisa que eu li num jornal antes de tomar uma porrada na cabeça ou o nome de uma vodka vagabunda...&lt;br /&gt;– Zed, vasculhe suas roupas. Deve ter alguma carteira, um documento, sei lá. Me lembro de que você pagou o táxi. Você não tem tatuagens... isso poderia ajudar as coisas – ofereceu, descendo o lençol branco, a anunciação de um vasto caminho de folhas, galhos, espinhos, rosas vermelhas e pequenos girassóis alaranjados que floresciam da nuca até... – Cada uma das flores eu lembro de um ano da minha vida... cada pétala um mês, cada espinho uma história. Eu fiz de tudo para não cair na Seita dos Fuleiros... hóstias demais dão nisso, seu seqüelado – riu, traindo um leve sotaque do norte do país, com uma nota inglesa lá atrás. – Mas, apesar de desmemoriado, você não parece um Fuleiro.&lt;br /&gt;– Onde você nasceu, Gas Gas?&lt;br /&gt;Ela riu, uma arcada um tanto irregular, mas os dentes muito brancos. Pareciam de verdade. Os seus, ele viu no espelho, embora parecessem imortais, por isso eram obviamente falsos. Até o momento, era a única parte de seu corpo que notou ser uma prótese. Haveria outras?&lt;br /&gt;– Vamos começar com esse jogo de novo? Você já perguntou isso. Mas ok. Vou te fazer umas perguntas – e saiu daquela postura felina para a de uma irmã mais velha, apoiando firmes os braços nos joelhos. Ela era incrivelmente linda. Apontou a mesa, que abriu um claro de luz por toda a parede, enquanto aquele cheiro de silício orgânico queimado pairava levíssimo no ar, o típico odor de uma neuromáquina. Sim, a Psico era mesmo dela. Não estava em sua casa. Por isso não tinha reconhecido de vez o Neverland. Sentiu sua cara ficar vermelha. Ela o pegou direitinho. Aliás, poderia ter feito coisa pior com ele. Mas se aquela não era sua casa, de onde tinha vindo?&lt;br /&gt;– Jogue aí: imagem Zed Stein.&lt;br /&gt;A parede começou a ser preenchida por dezenas de rostos. Alguns nem pareciam ser homens. Muitos morenos, alguns hirsutos, uns carecas, outros loiros, alguns eslavos, negros, uns japoneses, malaios, talvez indígenas não sabe de que lugar, caucasianos, balcânicos, quase árabes, latinos – bem, pelo menos daquela amostra de cem rostos, nenhum era o dele, de longe. Havia ainda algumas centenas de links, passariam horas à sua procura. Zed Stein deveria ser alguma espécie de John Doe hebraico, um judeu errante, e certamente errado. Seqüelado, como Gas Gas disse.&lt;br /&gt;– Gas Gas – disse.&lt;br /&gt;– Sim...&lt;br /&gt;– É seu apelido, né?&lt;br /&gt;– Só se for pra você, moço. Garotas como eu não têm apelidos. Mas lembro que você me chamou assim ontem, quando gozava... parecia um bebê engasgado...&lt;br /&gt;– Olha. Se eu te pedisse uma coisa pra me ajudar, você faria?&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Você tem uma barca? Ou sabe de alguém que poderia arrumar uma sem precisar pagar? Não tenho certeza se meus econódulos têm mais fundos do que pra pagar um táxi – sorriu. – Sei que pareço meio folgado, mas você precisa confiar em mim...&lt;br /&gt;– Eu tenho uma barca. Agora, me dá um bom motivo para confiar em você e emprestá-la para um tipo como você.&lt;br /&gt;– Isso aqui seria um motivo bom o suficiente? – Deixou cair de lado da perna a arma, sorrindo cinicamente.&lt;br /&gt;A face oeste que se abria para a varanda do apartamento estava ainda obscura – mas os reflexos do esmaecido sol nas águas do Rio-Mar batiam em cheio nos recipientes das velas ao redor dos tatames, dando-lhe uma melhor medida do quarto e ao mesmo tempo perturbando suas idéias.&lt;br /&gt;– Porra, Zed! Não fode. Não precisa de nada disso. – Ela soltou o lençol, revelando a pentelheira basta e ruiva, e um maldito reflexo úmido entre um pêlo e outro o desconcertou. O pau coçava. – A gente só se conheceu ontem, não sei nada de você a não ser que gosta de foder e dizer coisas engraçadas. A gente não pode confiar em qualquer um que entra na nossa buceta hoje em dia, com isso eu já tou acostumada. Mas, se tu quer forçar a barra, pode me assaltar e levar a barca. Tu pode me matar também, mas acho que não estaria a fim de se foder tanto. Sou rastreada pelo Neverland, tenho umas dívidas com os caras. Cara, se tu me matar, a seguradora deles vai na tua bota. Se tu levar minha barca, meto uma Milícia atrás de você. Na boa, cara, acho melhor você sair fora. Queria ser legal com você, mas você está fodendo tudo.&lt;br /&gt;– Quem está fodendo tudo é você. Que discursinho é esse? Acha que eu não estou cagando pro Neverland ou pras milícias? Tu sabe com quem você tá falando?&lt;br /&gt;– E tu, sabe?&lt;br /&gt;– Olha só. Eu só quero dar uma volta pela cidade. Prometo que te devolvo a barca no fim do dia. Você precisa dela pra trabalhar? Se sim, te levo lá, sem drama. Porra, você parece uma garota legal, não vem dar uma de durona pra cima de mim...&lt;br /&gt;– Ah sim, e por quê? – Baby Gasoline se levantou rápida e deu um pontapé certeiro na sua mão, voando o laser pro outro canto do quarto, e se colocou em posição de ataque. Boxe tailandês. Pouca gente sabia usar isso hoje em dia. Ah, mas que saco, não estava a fim de brigar com essa menina. Olhou direto nos olhos dela. Fez menção de ir buscar o laser, e tomou um chute em cheio na boca. O sangue veio na seqüência. O cheiro da menina mudou. Ele lembrou desse cheiro. Sentiu-o muitas vezes. Lembrou que tinha sido treinado para entender esse cheiro. Mas não queria lutar.&lt;br /&gt;– Beleza. Vou nessa então – mas antes de terminar de falar, tomou outro murro na fuça, sendo jogado pra porta do quarto. Zonzeira veio, clarão na mente. Que descontrolou: resolveu se atirar para cima de Baby – que o interceptou com um chute certeiro no saco.&lt;br /&gt;– Chora agora, mas não vai rir depois – ela riu. – Tá achando que vai me apontar uma arma e sair na boa?&lt;br /&gt;– Eu nem te apontei nada... – tentou dizer, enquanto seu baixo ventre se encolhia e pulsava em dor pura. Ouvia até pássaros cantarem, que absurdo. – Já entendi qual é a tua. Mais uma histérica que fode com teus caras depois expulsa na porrada, sem querer conversar... nem terminou o café que fiz pra você... – quem sabe uma autopiedade não ajudava?&lt;br /&gt;– Doeu? Perae, vem aqui – ela amainou, de repente. Mas ele não: se aproveitou do vacilo dela e jogou todo o peso de seu corpo para cima, agarrando seus antebraços para trás. – Tá vendo esses dentes? Titânio, gatinha. Imagina o estrago que não fariam nesse pescocinho...&lt;br /&gt;E um joelhaço na boca do estômago:&lt;br /&gt;– Filho da puta! – O café voltou à boca, mais amargo. Ela se afundou no colchão e voltou metendo a testa em seu nariz: – Tá achando que pode me sacanear? – Esgueirou-se feito cobra sob ele e pulou por trás da cama. – É uma palavra e eu já chamo a milícia pra vir buscar essa tua carcaça de merda!&lt;br /&gt;– Mais um soco desses e eu me apaixono – gemeu, girando de lado, sobre as costas, e apalpando o nariz. Quebrado. Caralho, a Divisão vai me descontar mais essa.&lt;br /&gt;– Que é que tu falou? Repete se é homem – Ela pareceu irritada de um jeito estranho, quase violáceo.&lt;br /&gt;– Ok, ok, você venceu – ele mandou. – Não vai adiantar nada a gente ficar aqui dando porrada um no outro. Tudo bem, eu mandei mal. Então deixa te fazer outra proposta... – No que viu, Baby já havia girado pelo quarto e capturado seu laser, apontado para ele sem tremer. Levantou a mão direita. – Se você quiser, vem comigo. Pode até continuar me apontando essa arma. Eu só queria dar um passeio pela cidade, tentar me lembrar de algo nas ruas, pra ver se lembro o que é que vim fazer aqui. Prometo te pagar o combustível da barca depois. É que sabe... eu não sabia se poderia confiar em você, por isso pensei na arma... mas estava errado. Eu peço desculpas... – encolheu-se.&lt;br /&gt;– Tu é um zé-ruela, mesmo – ela jogou, se levantando, catando um roupão esverdeado de um mancebo ao lado do espelho. – Me dá um minuto. Se tu fugir, é porque é um cusão mesmo. – Pulou rápida na direção do banheiro.&lt;br /&gt;Com dificuldade, ele se pôs de pé. A menina era boa. Parecia ter tomado um couro numa esquina de um bairro fodido, doía tudo, o nariz, as bolas, o estômago, a cabeça, e o pau que não parava de coçar. Lá do banheiro vinha o som da urina de Baby batendo no vaso, em breve seria destilado nas águas da Cidade-Olho, misturando-se às águas da Mnemomáquina... sim, era isso. A MMM agora acolhia a memória dos rins dessa pseudo-iraniana. Era isso. Precisava descolar alguém que tivesse ligação à MMM. Mas como descobrir? Encontrar Sal. Ouviu um leve rumor de água vindo do banheiro. Poderia aproveitar e escapar dali, mas não tinha mais nada a perder – de algum lugar, vinha a certeza de que ele e a garota estavam ligados. No espelho, seu nariz tinha parado de sangrar. O sangue era seu ou teria sido enxertado? A porta do banheiro abriu de repente. Baby vestia uma calça jeans e um casaco de couro longo.&lt;br /&gt;– Olha só, eu precisava agitar umas coisas hoje – ela disse, calma. – Não devia fazer isso, mas você é tão mané que tenho certeza de que pode acabar esquecendo de onde veio e não vai conseguir devolver minha barca até o fim do dia. Então se liga. – Tirou um cartão do bolso e o estendeu a ele. – Tá na vaga 25, é uma barca Nautilus 55. Me custou uma grana. Eu vou contigo.&lt;br /&gt;Ele continuava aturdido.&lt;br /&gt;– Então vai confiar em mim... Mas posso saber por quê?&lt;br /&gt;Ela se aproximou e pegou em seu pau com autoridade.&lt;br /&gt;– Digamos que você seja uma espécie de experiência para mim. Tenho um certo tesão por gente com memória curta. Bora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-113748237767399738?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/113748237767399738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=113748237767399738&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/113748237767399738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/113748237767399738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2006/01/16-psicologia-dos-icebergs_113748237767399738.html' title='16 : A psicologia dos icebergs'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19019763.post-113212682656713810</id><published>2005-11-16T05:30:00.000-02:00</published><updated>2006-01-17T14:26:43.570-02:00</updated><title type='text'>15 :</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Olho Seco &lt;/em&gt;&lt;strong&gt;São Paulo 1 de abril de 2055&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;worldwide 22h35min55s&lt;/em&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;escândalo literário&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;MORRE EM SÃO PAULO O ESCRITOR J.D. SALINGER&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Suspeito de pertencer à DNL, o autor norte-americano foi encontrado morto no fosso de um elevador do edifício Copan usando roupas de mulher&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Ronaldo Bressane&lt;br /&gt;Da Reportagem Local&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/salinger.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 224px; CURSOR: hand; HEIGHT: 271px" height="232" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/200/salinger.jpg" width="175" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Seymour Glass ficaria chocado. Holden Caulfield teria gargalhado. Mas, botas batidas antes das do papai, ambos os personagens não tiveram tempo de saber que Jerome David Salinger teria seu fim no fosso de um elevador portando um vestido vermelho gasto e uma reles peruca loura. Nascido em 1919 em Nova York e desaparecido desde a década de 10, o autor do hoje esquecido &lt;em&gt;O apanhador no campo de centeio&lt;/em&gt; [um dos livros mais influentes do século 20, protagonizado por Caulfield] e criador de personagens marcantes como os geniais irmãos da família Glass, de livros como &lt;em&gt;Franny e Zooey&lt;/em&gt;, ressurgiu morto em São Paulo aos 144 anos, no último sábado de março. Dada a perplexidade do evento, mais uma vez vergonhosamente a Milícia ocultou o crime da mídia. E há ainda intelectuais que afirmem que não existe censura no centro do mundo, aqui do lado de baixo do Equador. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Escoriações pelo corpo inteiro, o pescoço partido, praticamente todos os ossos rachados e um que outro dente a menos, sem contar o prodigioso cérebro tristemente espalhado em milhares de fragmentos no fosso do elevador do bloco A do prédio concebido por Niemeyer... Só através de consulta ao Neverland Institute é que a guarda copanesca logrou identificar o corpo do sessentão despedaçado como propriedade do gênio literário, que provavelmente teria caído do 32º andar. Porém, nossos geniais milicianos não farejam a mínima pista para encaçapar um sujeito cuja última notícia havia sido justamente seu sumiço, em 2011, de seu rancho em Cornish, New Hampshire [onde havia cumprido quarenta anos de reclusão voluntária], veio, perdoem a expressão, dar com a fuça tão longe de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não temos dúvidas de que ele é ele”, afirma sagazmente Henrique Tavares de Osório, xerife da Milícia Central da Cidade-Olho. “O DNA, a arcada dentária, os cabelos, as digitais, a íris são as de um homem chamado Jerome David Salinger, batem com todos os dados do extinto Exército yankee, o cara serviu lá na Segunda Guerra, sô. Estamos aguardando alguns detetives da milícia gringa chegarem para seguirmos as investigações”, espera o bravo xerife Osório, que não deixa de transparecer incômodo com o enigma: “Francamente, por enquanto nem entendemos como é que um sujeito de 130 anos parece ter sessenta... é o caso mais estranho que já vi nessa cidade, sô”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As investigações, para variar, são precárias: sabe-se apenas que não houve falha técnica na porta do elevador, o que sugeriria um acidente. O corpo do escritor só foi encontrado quando o zelador do prédio notou que o elevador se recusava a descer até a garagem. Sempre segundo as milícias, não há digitais, nenhuma marca de arrombamento da porta do elevador, nenhum dos 50 funcionários viu qualquer movimento estranho – muito menos uma loura claudicante num vestido vermelho foi filmada por qualquer das câmeras que vigiam 24 horas o edifício, tombado pelo Patrimônio Público, isto é, comprado pela onipresente Companhia das Águas Ocidentais [&lt;em&gt;leia box sobre o Copan&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/lemniscata.jpg"&gt;&lt;/a&gt;Divisão dos Não-Lineares&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas há, claro, uma pista forte que poderia desvendar todo o mistério – não estivesse ela toda cercada por pêlos, digo, névoas. Na parte de dentro da coxa direita do escritor, uma tatuagem quase encoberta por uma pelagem grisalha traça um símbolo curioso: uma lemniscata. “Temos subsídios para afirmar que o símbolo seria um dos códigos secretos da seita Divisão dos Não-Lineares, designando um de seus Agentes”, explica o científico xerife, corroborado pelo consultor Che Guevara Pereira Wanderley [&lt;em&gt;veja entrevista no box&lt;/em&gt;]. Ou seja: para piorar a história de um homem que surge 40 anos depois de sua pretensa morte, ele estaria vinculado a uma das organizações terroristas mais esquisitas do planeta. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/ortgies.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/200/ortgies.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;h, sim, outro detalhe importante. Seymour Glass, gênio superdotado com inclinações budistas, suicidou-se utilizando uma 7.65 no conto “Um dia ideal para peixes-banana”. Era a mesma arma que JD escondia sob sua [este repórter nunca imaginou relatar isso na carreira] calcinha preta Victoria’s Secret, tamanho M, modelo Ipanema Killer. A arma, uma Ortgies alemã, está datada de meados da década de 1940.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;“Detestam bossa nova... alguns não sabem o próprio nome”&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Consultor político, Che Guevara Pereira Wanderley fala com exclusividade sobre o bizarro envolvimento de Salinger com a Divisão dos Não-Lineares&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Da Reportagem Local&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/che%20guevara%20wanderley.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/che%20guevara%20wanderley%202.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/che%20guevara%20wanderley%202.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O nome e o currículo, assim como a cerrada barba branca, são respeitáveis, além de um tanto sujos. O arroz-de-festa de programas policiais Che Guevara Pereira Wanderley, 35, é consultor internacional para assuntos políticos da corporação religiosa Mohammadotcomm, dos laboratórios Al Drogadito, da grife de bebidas Eau d’EUA, da companhia aérea Airtube, da ubíqua Companhia das Águas Ocidentais, do estúdio de manipulação genética Neverland Institute, da autoexplicativa Milícias Amigas Unidas e da TXT, holding multimídia que controla 51% das ações desta gazeta [não quer dizer que esta entrevista tenha sido paga, o leitor já está bem grandinho para distinguir uma banana de um peixe-banana]. Doutor em Ciências do Terrorismo pela Univesidade de Cabul, Afeganistão, é considerado um dos maiores especialistas mundiais na misteriosa Divisão dos Não-Lineares, seita terrorista a que pertenceria J.D. Salinger.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido em Birigüi [SP] de pais desconhecidos, em uma comuna gerida pelo saudoso Movimento dos Sem-Terra, o melífluo Guevara, mais conhecido por El Che, o homem que coleciona romances com divas da grandeza da cantora Paloma Strawberry, da atleta Katrina Chloé Melendez e da socialite Carolina Brown Buarque de Holanda Salles – ou seja, um sujeito que se dá bem basicamente sendo um cretino bem-informado –, recebeu a reportagem em sua espartana sala no Neverland Institute, no 23º andar da aberração arquitetônica que em princípios do século abrigava o Instituto Tomie Ohtake. O céu estava quase aberto, a tarde caía roxa sobre as águas fétidas do estuário Tietê e a sedutora secretária de Guevara serviu deliciosos bolinhos de chuva. O café, porém, era péssimo, e o sotaque mezzo caipira mezzo afegão do consultor tornou a conversa por vezes sem sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;OLHO SECO &lt;/strong&gt;O que é a Divisão dos Não-Lineares?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;GUEVARA &lt;/strong&gt;Ninguém sabe muito bem [&lt;em&gt;olha a reportagem com semblante desafiador, tom professoral&lt;/em&gt;]. Parece ser uma espécie de seita internacional, algum tipo de clube, cujos membros – chamados simples e obviamente de Agentes – detêm raros conhecimentos extrasensoriais e poderes paranormais [&lt;em&gt;faz um rápido e teatral tique com as sobrancelhas. Irritante&lt;/em&gt;]. Essa maçonaria está espalhada por todos os continentes, não tem um líder definido e até hoje não se sabe exatamente seu objetivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Quantas pessoas pertencem à DNL?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Outro dado desconhecido. Supõe-se existir cerca de mil Agentes trabalhando para a Divisão, mas, como muitos desses Agentes estão hibernando, em reconstrução – como dizem sobre os membros que passam temporadas sendo reformados em clínicas infogenéticas clandestinas –, outros vagamente mortos – como se referem aos membros que se encontram em longos comas induzidos –, não se sabe ao certo [&lt;em&gt;sorri com metade do rosto. O que quer dizer "vagamente mortos"?].&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Há uma hierarquia na DNL?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Como o próprio nome já diz, isso seria impossível, uma vez que os Não-Lineares pregam movimentos aleatórios, inspirando-se, provavelmente, na Teoria do Caos criada há 100 anos por Eduard Norton Lorenz e desenvolvida posteriormente em um notável artigo de 1972, intitulado [&lt;em&gt;pausa dramática&lt;/em&gt;] “O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas?”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Daí a tatuagem que lembra uma borboleta...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Lembra uma borboleta, mas também a lemniscata [&lt;em&gt;desenha no ar, feliz com a pronúncia do nome difícil&lt;/em&gt;], ou, ainda, um “atrator estranho”, figura da física que é usada para representar o estado em que se desenvolve o caos [&lt;em&gt;suspira&lt;/em&gt;]. É algo meio complexo pra explicar aqui. Tudo o que posso dizer é que todos os Agentes que tive a oportunidade de conhecer pelo mundo tinham a mesma idêntica tatuagem, sempre no mesmo lugar, a coxa esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Algum desses Agentes explicou o motivo da borboleta?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Veja bem, esse é o ponto... até o momento, todos os agentes que uma Milícia capturou ou que colegas tiveram a chance de conhecer estavam próximos da alienação mental. Mesmo sob tratamento psiquiátrico... [&lt;em&gt;gagueja&lt;/em&gt;] pesado, nenhum deles jamais disse o nome...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;O senhor quer dizer que mesmo sob tortura eles nunca disseram o nome?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Não foi isso o que eu quis dizer... não há necessidade de tortura hoje em dia, você como jornalista informado sabe bem disso [&lt;em&gt;dá um risinho seguido de uma espécie de guincho, disparando um perdigoto sobre a reportagem&lt;/em&gt;]. Desculpe... mas, como eu dizia, se pode extrair uma informação de alguém simplesmente varrendo seu cérebro. O estranho é que não existia dado nenhum, a não ser fatos extremamente recentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Como assim? Não havia memória no cérebro desses Agentes?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Sim, isso é o mais estranho de tudo [&lt;em&gt;seus dentes são bizarramente perfeitos&lt;/em&gt;]. Nenhuma memória, nem implantada nem natural. Em outras palavras, esses Agentes eram praticamente zumbis quando as forças especiais colocaram as mãos neles [&lt;em&gt;funga&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Mas somente a tatuagem seria suficiente para identificar os “zumbis”?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Há outro dado curioso, que se repete aqui no caso de Salinger [&lt;em&gt;espirra&lt;/em&gt;]. Muitos dos Agentes tinham identidades de pessoas desaparecidas há duas décadas, alguns já estavam “mortos” há mais de sessenta anos. Apesar disso, alguns desses Agentes aparentavam estar em seus trinta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não poderiam ter sido reformatados por um estúdio biogenético, como o seu cliente, o Neverland?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não... estúdios costumam implantar um nanocomputador no indivíduo que contrate seus serviços. Mesmo gente que “remoça” 40 anos aqui no Neverland tem esse pequeno hardisk implantado [&lt;em&gt;enfia um dedo por entre os vãos da camisa e coça o sovaco esquerdo&lt;/em&gt;]. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O hardisk é implantado sob a axila?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não, desculpe, isso é uma alergia que eu tenho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Voltando ao assunto... como o Neverland pôde desvendar a identidade do corpo encontrado no Copan?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Desde sua fundação, o Neverland abriga um gigantesco banco de dados com identidades de pessoas desaparecidas. [&lt;em&gt;Coça de leve a orelha esquerda.&lt;/em&gt;] A de Jerome David Salinger, colhida há quase cinqüenta anos, era uma delas. O dado foi cruzado com várias instituições legais, penais nos EUA e confirmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;O senhor disse que eles têm poderes paranormais... que viria a ser isso?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Bem, há estranhos relatos de reencarnação, o que corroboraria para a verossimilhança de um infeliz renascimento de Salinger aos 134 anos [&lt;em&gt;faz um sorriso de sabichão enquanto parece remexer em seus genitais&lt;/em&gt;]. Há relatos de força física pronunciada, levitação, telecinese, travessia de paredes, desaparecimentos... li reports de empresas de espionagem européus segundo os ciganos crêem fortemente que alguns Agentes lêem o futuro [&lt;em&gt;cheira os dedos da mão que teria levado aos genitais&lt;/em&gt;]. E, naturalmente, como é dado nas classes inferiores [&lt;em&gt;pigarreia&lt;/em&gt;], sua lenda se espalha entre os Coisos, que acreditam serem os Agentes uma espécie de santos [&lt;em&gt;sorri indulgente&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;A DNL é acusada de praticar terrorismo. Algum ato em particular?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Tudo o que temos, até o momento, são suspeitas, histórias ouvidas entre os Coisos, lendas do ciberespaço e romances ruins... Aliás, isso parece pródigo na literatura praticada aqui na Cidade-Olho [&lt;em&gt;a reportagem tem vontade de mandar um cruzado em seu queixo duplo&lt;/em&gt;]. A DNL não deve agir como velhos grupos terroristas europeus ou de guerrilheiros latino-americanos – aparentemente, ela jamais deixa rastros. Assim, alguns dos atos terroristas ocorridos nos últimos anos têm sido aproximados à DNL, porém sem razão aparente. Há desde casos que chocaram a opinião pública, como a explosão do turbocóptero em que seguia o então CEO da Hydrogen, a detonação de uma bomba bacteriológica em Ayers Rock, Austrália, que causou a morte de 100 mil turistas, a implosão da Pirâmide de Miquerinos, no Egito... até coisas desprovidas de lógica, como o assassinato de João Gostoso, o líder da popular banda de newaxé João e Suas Gilbertas, naquele show em Roma, a disseminação de vírus em mesas Psico e a matança indiscriminada de pessoas cujos nomes começavam com a letra V, em 2050, no Zaire, além dos ataques à sede asiática do Neverland em Katmandu, quando quase perdemos todos os nossos arquivos [&lt;em&gt;faz a cara mais triste do universo, o filho-da-puta&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Qual a razão para uma seita terrorista assassinar João Gostoso?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Bem, aparentemente os Agentes da DNL detestam um certo tipo de música – pelo menos foi o que disseram que acontecia durante as sessões de psi..., de psiquismo dirigido [&lt;em&gt;pigarreia, tosse&lt;/em&gt;]. Quando eram tocadas músicas do cancioneiro brasileiro clássico, os Agentes tinham profundas convulsões. Parece que eles não gostam muito desse tipo de música... [&lt;em&gt;risos&lt;/em&gt;] Há relatos de vômitos seguidos da imagem de um banquinho e um violão [&lt;em&gt;gargalha, tosse&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Uma última pergunta: como consultor do Neverland, qual a recepção que o senhor tem dos boatos que afirmam estar ainda vivo o fundador do instituto?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Michael Jackson? [&lt;em&gt;Risos.&lt;/em&gt;] Nosso Grande Guia certamente deve estar dando piruetas e executando seu moonwalking no céu ao ouvir esse tipo de bobagem. Gostaria que esses disseminadores de boatos estivessem certos. Mas, infelizmente, o senhor Jackson continua repousando em seu rancho nos EUA, hoje como há 40 anos, ao lado de Peter Pan, Capitão Gancho e os Garotos Perdidos, vestido com seus trajes mortuários de Black Wendy [&lt;em&gt;gargalha reto&lt;/em&gt;]. Ah, olha, você não vai publicar isso, hein? [&lt;em&gt;Risos, tosse&lt;/em&gt;] Vê lá... corta essa última frase [&lt;em&gt;diz para o gravador&lt;/em&gt;]... é meu cliente... [&lt;em&gt;RB&lt;/em&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Salinger [1911-2055]&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Escritor teria sido espião do Exército Norte-Americano na Segunda Guerra&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/salinger.gif"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/salinger.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Novelista e contista, Salinger publicou um romance e várias histórias curtas durante o período de 1948 a 1959. É conhecido por ter escrito &lt;em&gt;O apanhador no campo de centeio&lt;/em&gt;, romance hoje obscuro que ganhou milhões de leitores no século 20, apaixonados pelo charmoso caráter de seu protagonista, Holden Caulfield – um rebelde adolescente que foge de casa para passar um fim de semana em Nova York, extinta metrópole da costa oeste norte-americana. Esta é aliás a cidade natal do narrador, que nasceu em uma família de classe média alta, filho de pai judeu e mãe irlandesa. Depois de tentar, sem sucesso, estudar artes dramáticas, Salinger foi para uma escola militar. Entre seus 18 e 19 anos, o escritor passou algum tempo na Europa – época em que se apaixonou por Oona O’Neill, garota que viria a chocá-lo posteriormente ao se casar com o cineasta e ator Charles Chaplin, que tinha quase o dobro de sua idade [a dor-de-cotovelo rendeu a Salinger a obra-prima “Para Esmé, com amor e sordidez”, conto presente em &lt;em&gt;Nove estórias&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;De espião a espionado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Salinger voltou aos EUA, onde cursou Letras, mas foi logo em seguida convocado a lutar na Segunda Guerra – se envolveu em ações famosas como a invasão da Normandia e a inútil e sangrenta batalha de Hürtgenwald, que matou 24 mil praças yankees [bons tempos]. Em Paris, o escritor-soldado viria a conhecer Ernest Hemingway. Hospitalizado com trauma de guerra, o autor chegou a servir posteriormente na Contra-Inteligência norte-americana – período extremamente nebuloso de sua vida. Casou-se em 1945 com uma médica francesa, e dez anos depois, com Claire Douglas, que lhe daria 2 filhos. O escritor voltaria a se separar e iniciar uma vida reclusa em 1967, confinando-se em um rancho em Cornish, New Hampshire. Nessa época, já era um dos autores mais amados e respeitados dos EUA. Jamais publicou nenhuma história nova, no entanto; deu somente uma entrevista e dele temos pouquíssimas imagens [ele proibia de reproduzir o retrato em seus livros, sábia atitude].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já durante seu retiro “tibtetano” – havia se convertido ao budismo ainda nos anos 1950 –, teve um caso com a também escritora Joyce Maynard, que publicou uma biografia não-autorizada de seu relacionamento com o autor. E casou-se ainda outra vez, em 1989, com Collen O’Neill. À época, comentava-se que, apesar do silêncio público, continuava escrevendo: “I like to write. I love to write. But I write just for myself and my own pleasure”, falou ele à New Yorker em 1974. Mas, quando seus familiares comunicaram seu desaparecimento do rancho Cornish, em 2011, nenhum texto inédito foi encontrado. Tudo o que se tem de um dos mais notáveis autores da língua inglesa são um romance, cerca de 40 histórias curtas e uma passagem mal-explicada pela cidade de São Paulo. [&lt;em&gt;RB&lt;/em&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Copan, 104&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A cena do crime é uma grande curva na cidade saturada de ângulos retos, a dissolver-se nas ondas do Rio-Mar. Um marco da modernidade paulistana, habitado por CEOs, vagabundos, artistas e milionários excêntricos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/Copan.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/copan2.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/copan2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/copan.jpg"&gt;&lt;/a&gt;O edifício Copan foi projetado pelo arquiteto carioca [i.e. nascido no extinto Estado do Rio de Janeiro] Oscar Niemeyer em 1951. As obras foram concluídas em 1966. Com o intuito de construir um complexo hoteleiro, residencial, turístico e de serviços – o Maciço Turístico Copan –, a Companhia Panamericana de Hotéis e Turismo encomendou o projeto original a Niemeyer, que idealizou um lugar onde pessoas de diferentes organizações familiares, classes sociais e culturais pudessem conviver em harmonia. Para isso, além de apartamentos, foram projetadas diversas áreas de convivência: cinema, teatro, restaurantes e um hotel de luxo. No entanto, a Companhia Panamericana nunca conseguiu levar o projeto adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A planta da obra passou pelas mãos de representantes do Banco Nacional Imobiliário, da construtora e incorporadora CNI e do Banco Bradesco, hoje WB$, que alterou o projeto original e deu início às obras em 1957 – o edifício jamais figurou em qualquer livro de Niemeyer, que teria ficado desgostoso com a descaracterização de seu projeto. O hotel e o teatro nunca saíram do papel e os apartamentos dos blocos E e F, que contariam com 3 dormitórios, foram redivididos em quitenetes e apartamentos de 1 quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Copan seria alvo de nova cirurgia anos após a Grande Enchente do Tietê, em 2017. Um dos pouquíssimos edifícios do centro da Cidade-Olho a continuar com suas fundações intactas, o Copan é considerado símbolo da cidade. Mesmo perdendo o térreo, o belo mezanino e 3 andares para as águas do Rio-Mar, dois andares foram transformados em garagem para barcas, uma excelente sala de holocinema [propriedade da sua, da nossa TXT] retomou o espaço que era de uma companhia evangélica, metade dos apartamentos do prédio foram ocupadas por escritórios de megacorporações de mídia, enquanto metade segue a tradição residencial. No topo, funciona a famosa casa noturna Dark Air, que abrigou um dos últimos shows da banda de newaxé João Gostoso e Suas Gilbertas – o líder da banda, suspeita-se, foi assassinado pela Divisão dos Não-Lineares, de que faria parte o escritor J. D. Salinger. [&lt;em&gt;RB&lt;/em&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;“Uó”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Modernos comentam modelito usado por escritor para pedir a conta e passar a régua&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/1600/joelma%20magalhaes.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5536/1874/320/joelma%20magalhaes.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;“Vestido vermelho da Desirée Silva, comprado na praça da República? Chorei” &lt;em&gt;– Alice Putz, Visionaire&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Mag&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Achei total fim de século. Deslumbrante” – &lt;em&gt;Titti Maninho, jornalista de moda&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa calcinha nem minha vó mais usa” – &lt;em&gt;Norman Keller, Ropa Loca&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tadinho, o livro é tão bonito, morrer de um jeito assim brega” – &lt;em&gt;Oscar KKK, consultor de branding &amp;amp; style&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A peruca loura vai voltar a pegar fogo esse verão” – &lt;em&gt;Baby Gasoline, garota-propaganda&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Queda livre total. Uó!” – &lt;em&gt;Ronnie Cu de Veludo, modelo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei lá, gente, acho que pra morrer não se escolhe estilo, já dizia Nietzsche” – &lt;em&gt;Joelma Magalhães, socialite, designer e filósofa&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19019763-113212682656713810?l=mnemomaquina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/feeds/113212682656713810/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19019763&amp;postID=113212682656713810&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/113212682656713810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19019763/posts/default/113212682656713810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mnemomaquina.blogspot.com/2005/11/15.html' title='15 :'/><author><name>Zed Stein</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06960217099955394934</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://static.flickr.com/47/125488512_e33cbe088b_o.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry></feed>
