17.1.06

16 : A psicologia dos icebergs

De novo acordar que teve outra vida. De novo lembrar ter avistado a si por de sobre, detrás do ombro. O sonho fugidio, sabia, já tinha sentido isso diversas vezes, nasceria e se apagaria no fim desse mesmo dia, feito flor de cacto. Sentir saudade de uma mera amnésia, não lembranças fragmentadas que nunca formavam senso. Seu trabalho, seu trabalho... o que fazia mesmo? Quem era aquela mulher ali na cama? Onde havia estado ontem? O que fazer com aquele envelope sobre a mesa? De quem era aquela foto que carregava na carteira? O que ele gostava de comer no café da manhã? Por que seu pau coçava tanto? Na cozinha, a luz do sol batia em cheio no café velho numa xícara desbeiçada, filtrada num cilindro de canela. O café ali desperdiçado desde quando? Por ele? Aquela casa era sua? Se fosse, de onde teria vindo a obsessão por holofotos de machos pelados nas paredes do armário da cozinha? Bom, se isso não o excitava, ele ainda não havia enviadado. Sintonizava pela janela a transição intermitente das nuvens entre carregadas, brancas, cúmulos, cirros, nimbos, clarões e esgares do sol negro de cada dia, furando as retinas nalguma lucidez que ele já não conseguia verbalizar – e por trás de tudo as luzes dos prédios a tornar tudo eterna noite laranja. Como se vivesse numa ação imóvel e ao um tempo incessante, seu sangue era um hamster numa roda da fortuna.
– Zed... você já acordou, meu amor?
Meu amor? Que horas eram? Qual seria o seu compromisso naquele dia? Por que ninguém da Divisão o procurava nunca? Seu pau coçava, vermelho, doía, as pernas meio bambas e um perrengue inchava no pescoço.... Triscou a mão, que voltou com um teco de sangue pisado. A Divisão. No centro do ar viscoso de todo dia, dor no pau aos poucos virava tesão. Merda, devia mesmo ter saído com os nervos divididos de fábrica, peixe elétrico tomando choque da água. Uma sensação de fome podia trazer alegria, uma porrada na cara reativaria uma lembrança de um algodão doce em um obscuro parque da infância. O nariz captou o aroma de pó de café, sim, gostava disso, e ali havia uma cafeteira do início do século, genuinamente italiano produzido na China, valeria uma nota na Benedito Calixto. E funcionava. E lá do quarto veio um espreguiçar seguido de um gemido delicioso, longamente, com uma nota triste no fim, sustenida. Sentiu os pêlos da cara se elevarem elétricos. Precisava se ligar à Mnemomáquina de algum jeito nessa porra de cidade. O matreiro mandamento da Ordem dos Agentes Especiais Não-Lineares: a perigo, buscar a MMM. Algo impresso numa maldita caverna de seu DNA. Pelo menos isso a Divisão tinha feito por ele. O que imporia a Zed mais a psicologia de um iceberg à deriva que a de um barco sem rumo. Ligou a cafeiteira.
Do lado da xícara, um laser. Hum, começava a fazer sentido. Bela arma, cabia direitinho na mão. Será minha?, pensava. Bom, algumas peças se recompunham, devagar, bom. Abriu a janela, ergueu-a contra o céu, nos ouvidos os chiados termostáticos das águas do estuário batendo nos muros dos prédios, as barcas, os turbocópteros... e as psicopombas, aqueles seres que transitavam entre o pântano do esgoto e as alturas das nuvens de merda que não paravam de chover sobre a Cidade-Olho. Uns quinhentos metros à frente, um monolito violáceo. Aquele edifício parecia querer dizer algo a ele. Dali emanava uma energia estranha... Suavemente, saxofones sequazes nos ouvidos o puxavam para uma tarefa a fazer, uma tarefa a fazer; encontrar Sal. Quem era Sal?
Há quanto tempo estaria acordado?
– Querido, que horas são?
Querido? Que história é essa? A mulher que era sempre a mesma e outra. Aquela que entreviu, no reflexo de seus olhos, a si mesmo. E de novo lembrar de ter se olhado como naquele sonho fugidio, que, sabia, já havia sentido diversas vezes, a se apagar no fim desse dia, uma flor de cacto que sopra palavras entre dentes, escapando junto um hálito familiar. Mas enfim, no tampo de um galley horas digitais vagavam em LCD, nubladas como névoa de cigarro, 5h27 e TEMPO INSTÁVEL. Ou seja, praticamente madrugada, apesar de o sol já nascido, horário de verão a que nunca se acostumava. E Zed pensou que madrugada era uma das mais belas palavras da língua, desta e outra – inside drug the madam.
Sim, afazeres. Banheiro. Chuveiro. Cigarro. Numa gaveta do banheiro achou um cortador de unhas e, sobre uma cadeira, roupas. Só podiam ser suas. Só usava roupas pretas. Eram mais fáceis de lavar. E de lembrar. Nunca se esquecia de suas roupas – era um passo e tanto. Recordou então, num flash, uma estada em Hong Kong, quando teve de escapar por uma janela de uma kitchinette completamente nu. Uma garota morta jazia em lençóis vermelhos, não se sabia onde começava o tecido e terminava o sangue. Ele nunca descobriu seu nome, ou se tinha terminado com ela.
Mas essa aqui estava bem viva:
– Eu também quero café!
Pegou duas xícaras e levou até o quarto. O café era maravilhoso, o que fez com que seus olhos lacrimejassem, emocionado, sentado na ponta da cama, contemplando os seios esféricos, de mamilos rosáceos, cítricos ou carmesim – a luz vinda pelas frestas da janela a cada minuto mudava de cor –, que orbitavam sob os olhos translúcidos da ruiva recém-desperta, ainda imersa na suada nuvem de um sonho.
Tinha acordado em seu próprio corpo, mesmo, tinha certeza disso? Lembrou-se da seita dos Fuleiros, que desenvolviam esquizofrenia mesquinha, roubando fiapos de memórias alheias, e louvavam o Deus Jegue. De repente a música voltou a fazer sentido. O nome explodiu em sua mente como uma felicidade secreta: Mulatu Astatke. Jazz etíope do final do século passado... de onde viria os saxofones subindo e descendo em curvas orientais, nublados pelo tremulante de uma guitarra em dub/wah, de onde se desvendava um esqueleto duro entre salsa e funk? Os Fuleiros pegavam manias emprestadas e transformavam em suas próprias, e alguns deles até afanavam mesmo o nome de terceiros. Mulatu Astatke. Era o som que vinha do emissor ao lado do leito. Ele queria se chamar Mulatu Astatke, não Zed Stein. Pelo menos teria alguma utilidade para o mundo.
– Muito boa sua cama. Eu tava mesmo precisada de dormir... ah, um café desses é tudo de bom... muito obrigada... – a mulher desceu os lábios na xícara, o perscrutando com radiosos olhos negros, inquietos sob sobrancelhas grossas. Não fosse o cabelo vermelho, pensaria uma iraniana. Sua cama! Então aquela ali era mesmo sua casa. – A gente dormiu o quê, umas trinta horas seguidas?
O sono.
Lembrou-se do conselho de Mark: dormir por mais de um dia inteiro era pernicioso – poderia levar sua memória embora para sempre. Bom, era um alívio se recordar de um conselho – e de Mark. As coisas vinham voltando como um fio de Ariadne percorrido ao contrário. Tinha conhecido aquela garota numa festa, logo após ela enfiar uma hóstia de cristal na língua... Baby, Baby Gasoline.
– Tanto assim? Por que a gente se cansou tanto?
– Talvez a gente estivesse fugindo... correndo...
Agir cego, desconfiado de todos. O que havia começado primeiro, a paranóia ou a amnésia? Largou a xícara no tatame que cobria toda a extensão daquele quarto... Tinha algo urgente a fazer, sentia nos poros tipo agulhas.
– Acho que vou levantar, tomar um banho... trabalhar. Hoje é sábado ou segunda?
– Se te falar que não sei, você ia achar que eu estou mentindo?
Ela sorriu. Tomou outro gole do café, sempre aqueles olhos muito pretos, redondos, com uma auréola castanho-esverdeada saltando no interior, cravados nele entre o sacana e um leve desespero.
– Ah, sim, bonito... O seu problema. Viu o prédio rosa em frente? Nós vamos para lá.
– O Neverland? Não sei se é uma boa idéia... – Por que havia falado isso? Parecia que nascia de sua própria língua. Há um minuto não sabia que aquele monolito era o Neverland. Talvez, se começasse a falar e não parasse nunca, fosse se lembrando de sua existência até o berço... – Você não tem uma mesa Psico? Acho que era melhor acessar o Neverland via rede... não queria ter de entrar ali de corpo presente, saca? Pode ser perigoso...
– Por que não acessa da tua própria mesa?
– Minha mesa?
– Sim, por que não? Se esta aqui é a tua cama... – e apontou uma mesa triangular, logo atrás dele, em frente à cama, grudada à parede, dez centímetros por dois metros de largura. Ele sentiu certa familiaridade com o móvel. Sua mesa.
– Ah, sim... – e se voltou, usando a cama como cadeira de trabalho. Uniu as pontas dos dedos das mãos e concentrou-se.
Mas não vinha a senha pra acessar a Psico.
Detrás dele, rompeu o riso sarcástico da dama.
– Incrível. Você não sabe mesmo onde está? Qual o número do seu apartamento, falaê?
Ele se virou para ela. Soltou o ar dos pulmões enquanto abaixava os ombros e pensou em Mulatu, Mulatu... dali poderia vir uma recordação e todo o resto que a circunda, a música como uma esponja para todo um período de tempo... teria estado na África?
– Não, honestamente, não.
Surgiu algo diferente nos olhos dela. Uma espécie de contemplação longínqua, ardilosa talvez, ou pior, um tipo de pena.
– Vamos lá, moço bonito. Isso acontece nas melhores famílias. – Estendeu a mão até ele. – Baby Gasoline. Meu nome é Baby Gasoline. Agora, você diz...?
– Zed Stein – ele riu, seco, estendendo a mão a ela, pressionando com leveza os dedos mornos dela. Os seus suavam. – O meu nome eu ainda lembro. Espero que não seja uma rua num gueto judeu, a última coisa que eu li num jornal antes de tomar uma porrada na cabeça ou o nome de uma vodka vagabunda...
– Zed, vasculhe suas roupas. Deve ter alguma carteira, um documento, sei lá. Me lembro de que você pagou o táxi. Você não tem tatuagens... isso poderia ajudar as coisas – ofereceu, descendo o lençol branco, a anunciação de um vasto caminho de folhas, galhos, espinhos, rosas vermelhas e pequenos girassóis alaranjados que floresciam da nuca até... – Cada uma das flores eu lembro de um ano da minha vida... cada pétala um mês, cada espinho uma história. Eu fiz de tudo para não cair na Seita dos Fuleiros... hóstias demais dão nisso, seu seqüelado – riu, traindo um leve sotaque do norte do país, com uma nota inglesa lá atrás. – Mas, apesar de desmemoriado, você não parece um Fuleiro.
– Onde você nasceu, Gas Gas?
Ela riu, uma arcada um tanto irregular, mas os dentes muito brancos. Pareciam de verdade. Os seus, ele viu no espelho, embora parecessem imortais, por isso eram obviamente falsos. Até o momento, era a única parte de seu corpo que notou ser uma prótese. Haveria outras?
– Vamos começar com esse jogo de novo? Você já perguntou isso. Mas ok. Vou te fazer umas perguntas – e saiu daquela postura felina para a de uma irmã mais velha, apoiando firmes os braços nos joelhos. Ela era incrivelmente linda. Apontou a mesa, que abriu um claro de luz por toda a parede, enquanto aquele cheiro de silício orgânico queimado pairava levíssimo no ar, o típico odor de uma neuromáquina. Sim, a Psico era mesmo dela. Não estava em sua casa. Por isso não tinha reconhecido de vez o Neverland. Sentiu sua cara ficar vermelha. Ela o pegou direitinho. Aliás, poderia ter feito coisa pior com ele. Mas se aquela não era sua casa, de onde tinha vindo?
– Jogue aí: imagem Zed Stein.
A parede começou a ser preenchida por dezenas de rostos. Alguns nem pareciam ser homens. Muitos morenos, alguns hirsutos, uns carecas, outros loiros, alguns eslavos, negros, uns japoneses, malaios, talvez indígenas não sabe de que lugar, caucasianos, balcânicos, quase árabes, latinos – bem, pelo menos daquela amostra de cem rostos, nenhum era o dele, de longe. Havia ainda algumas centenas de links, passariam horas à sua procura. Zed Stein deveria ser alguma espécie de John Doe hebraico, um judeu errante, e certamente errado. Seqüelado, como Gas Gas disse.
– Gas Gas – disse.
– Sim...
– É seu apelido, né?
– Só se for pra você, moço. Garotas como eu não têm apelidos. Mas lembro que você me chamou assim ontem, quando gozava... parecia um bebê engasgado...
– Olha. Se eu te pedisse uma coisa pra me ajudar, você faria?
– O quê?
– Você tem uma barca? Ou sabe de alguém que poderia arrumar uma sem precisar pagar? Não tenho certeza se meus econódulos têm mais fundos do que pra pagar um táxi – sorriu. – Sei que pareço meio folgado, mas você precisa confiar em mim...
– Eu tenho uma barca. Agora, me dá um bom motivo para confiar em você e emprestá-la para um tipo como você.
– Isso aqui seria um motivo bom o suficiente? – Deixou cair de lado da perna a arma, sorrindo cinicamente.
A face oeste que se abria para a varanda do apartamento estava ainda obscura – mas os reflexos do esmaecido sol nas águas do Rio-Mar batiam em cheio nos recipientes das velas ao redor dos tatames, dando-lhe uma melhor medida do quarto e ao mesmo tempo perturbando suas idéias.
– Porra, Zed! Não fode. Não precisa de nada disso. – Ela soltou o lençol, revelando a pentelheira basta e ruiva, e um maldito reflexo úmido entre um pêlo e outro o desconcertou. O pau coçava. – A gente só se conheceu ontem, não sei nada de você a não ser que gosta de foder e dizer coisas engraçadas. A gente não pode confiar em qualquer um que entra na nossa buceta hoje em dia, com isso eu já tou acostumada. Mas, se tu quer forçar a barra, pode me assaltar e levar a barca. Tu pode me matar também, mas acho que não estaria a fim de se foder tanto. Sou rastreada pelo Neverland, tenho umas dívidas com os caras. Cara, se tu me matar, a seguradora deles vai na tua bota. Se tu levar minha barca, meto uma Milícia atrás de você. Na boa, cara, acho melhor você sair fora. Queria ser legal com você, mas você está fodendo tudo.
– Quem está fodendo tudo é você. Que discursinho é esse? Acha que eu não estou cagando pro Neverland ou pras milícias? Tu sabe com quem você tá falando?
– E tu, sabe?
– Olha só. Eu só quero dar uma volta pela cidade. Prometo que te devolvo a barca no fim do dia. Você precisa dela pra trabalhar? Se sim, te levo lá, sem drama. Porra, você parece uma garota legal, não vem dar uma de durona pra cima de mim...
– Ah sim, e por quê? – Baby Gasoline se levantou rápida e deu um pontapé certeiro na sua mão, voando o laser pro outro canto do quarto, e se colocou em posição de ataque. Boxe tailandês. Pouca gente sabia usar isso hoje em dia. Ah, mas que saco, não estava a fim de brigar com essa menina. Olhou direto nos olhos dela. Fez menção de ir buscar o laser, e tomou um chute em cheio na boca. O sangue veio na seqüência. O cheiro da menina mudou. Ele lembrou desse cheiro. Sentiu-o muitas vezes. Lembrou que tinha sido treinado para entender esse cheiro. Mas não queria lutar.
– Beleza. Vou nessa então – mas antes de terminar de falar, tomou outro murro na fuça, sendo jogado pra porta do quarto. Zonzeira veio, clarão na mente. Que descontrolou: resolveu se atirar para cima de Baby – que o interceptou com um chute certeiro no saco.
– Chora agora, mas não vai rir depois – ela riu. – Tá achando que vai me apontar uma arma e sair na boa?
– Eu nem te apontei nada... – tentou dizer, enquanto seu baixo ventre se encolhia e pulsava em dor pura. Ouvia até pássaros cantarem, que absurdo. – Já entendi qual é a tua. Mais uma histérica que fode com teus caras depois expulsa na porrada, sem querer conversar... nem terminou o café que fiz pra você... – quem sabe uma autopiedade não ajudava?
– Doeu? Perae, vem aqui – ela amainou, de repente. Mas ele não: se aproveitou do vacilo dela e jogou todo o peso de seu corpo para cima, agarrando seus antebraços para trás. – Tá vendo esses dentes? Titânio, gatinha. Imagina o estrago que não fariam nesse pescocinho...
E um joelhaço na boca do estômago:
– Filho da puta! – O café voltou à boca, mais amargo. Ela se afundou no colchão e voltou metendo a testa em seu nariz: – Tá achando que pode me sacanear? – Esgueirou-se feito cobra sob ele e pulou por trás da cama. – É uma palavra e eu já chamo a milícia pra vir buscar essa tua carcaça de merda!
– Mais um soco desses e eu me apaixono – gemeu, girando de lado, sobre as costas, e apalpando o nariz. Quebrado. Caralho, a Divisão vai me descontar mais essa.
– Que é que tu falou? Repete se é homem – Ela pareceu irritada de um jeito estranho, quase violáceo.
– Ok, ok, você venceu – ele mandou. – Não vai adiantar nada a gente ficar aqui dando porrada um no outro. Tudo bem, eu mandei mal. Então deixa te fazer outra proposta... – No que viu, Baby já havia girado pelo quarto e capturado seu laser, apontado para ele sem tremer. Levantou a mão direita. – Se você quiser, vem comigo. Pode até continuar me apontando essa arma. Eu só queria dar um passeio pela cidade, tentar me lembrar de algo nas ruas, pra ver se lembro o que é que vim fazer aqui. Prometo te pagar o combustível da barca depois. É que sabe... eu não sabia se poderia confiar em você, por isso pensei na arma... mas estava errado. Eu peço desculpas... – encolheu-se.
– Tu é um zé-ruela, mesmo – ela jogou, se levantando, catando um roupão esverdeado de um mancebo ao lado do espelho. – Me dá um minuto. Se tu fugir, é porque é um cusão mesmo. – Pulou rápida na direção do banheiro.
Com dificuldade, ele se pôs de pé. A menina era boa. Parecia ter tomado um couro numa esquina de um bairro fodido, doía tudo, o nariz, as bolas, o estômago, a cabeça, e o pau que não parava de coçar. Lá do banheiro vinha o som da urina de Baby batendo no vaso, em breve seria destilado nas águas da Cidade-Olho, misturando-se às águas da Mnemomáquina... sim, era isso. A MMM agora acolhia a memória dos rins dessa pseudo-iraniana. Era isso. Precisava descolar alguém que tivesse ligação à MMM. Mas como descobrir? Encontrar Sal. Ouviu um leve rumor de água vindo do banheiro. Poderia aproveitar e escapar dali, mas não tinha mais nada a perder – de algum lugar, vinha a certeza de que ele e a garota estavam ligados. No espelho, seu nariz tinha parado de sangrar. O sangue era seu ou teria sido enxertado? A porta do banheiro abriu de repente. Baby vestia uma calça jeans e um casaco de couro longo.
– Olha só, eu precisava agitar umas coisas hoje – ela disse, calma. – Não devia fazer isso, mas você é tão mané que tenho certeza de que pode acabar esquecendo de onde veio e não vai conseguir devolver minha barca até o fim do dia. Então se liga. – Tirou um cartão do bolso e o estendeu a ele. – Tá na vaga 25, é uma barca Nautilus 55. Me custou uma grana. Eu vou contigo.
Ele continuava aturdido.
– Então vai confiar em mim... Mas posso saber por quê?
Ela se aproximou e pegou em seu pau com autoridade.
– Digamos que você seja uma espécie de experiência para mim. Tenho um certo tesão por gente com memória curta. Bora.

2 Comments:

At 17/1/06 14:29, Anonymous Anônimo said...

Nossa! É o mesmo livro? Bjs, DebyN

 
At 3/4/06 12:12, Anonymous Anônimo said...

Um gosto na boca difícil de esquecer...

 

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