13.10.06

0 : São Paulo, 2027

Monólogo em I ato. Cenário: monitores de TV fora do ar. No centro deles, o personagem IRINEU, de pé em um cubo de vidro transparente e iluminado. Ouve-se o som de helicópteros, tempestades e white noise. À medida em que IRINEU fala, o cubo vai sendo preenchido de água – até a boca.

Fodeu. Você veio entrevistar um ex-Big Brother[1] e agora vai ter que ouvir tudo. Estou praticamente me transformando em um peixe abissal! Bem, tudo começou quando eu caí no Buraco Quente... Olha. Calma. Eu explico. Marluce, a água está subindo! O Plano B! Essa chuva do inferno... vem cá, você não deveria estar lá embaixo, cobrindo as enchentes pra tua emissora? Hã? Não é pra isso que você deveria estar apontando tua lente chupadora? Ah, não cobre Cotidiano? Pano bacana, coisa fina isso que cê veste, te pagam bem na Globo? Tá, eu respondo... a HISTÓRIA, não é? Não é o que vocês jornalistas procuram? Em linha reta? Sei, já trabalhei com isso... Quer dizer, no tempo em que eu era um ex-Big Brother cheguei a ser cotado para apresentar telejornal. Eu seria o Garoto do Tempo! Tinha até passado no teste, mas não fui pra frente porque o diretor de jornalismo disse que eu “não passava credibilidade” para “anunciar tempestades”. Porra, como é que um ex-Big Brother não poderia passar credibilidade? Hein? Eu vos anuncio: EIS O DILÚVIO... Acredita? Se sempre morei aqui? Não, morava do outro lado da 23 de Maio, um pouco depois dessa avenida aí embaixo – as Águas Espraiadas. Pra lá, ó, ali a enchente já cercou o bairro, inundou a Interlagos e a Cupecê. E daqui a pouco tudo vai virar um baita Tietê: olhaí, a água, já batendo o sétimo andar. Não, nunca gostei do nome que a Marta Suplicy, que foi prefeita de São Paulo no início do século – lembra dela? –, colocou nessa avenida: pra mim, vai ser sempre Águas Espraiadas. OLHA. Preciso te falar! Minha vida dava um filme... A vida de todos os idiotas dá um filme, cheio de água, pais, filhos, olhos e jornais embrulhando peixes secos... Eu nasci perto de uma favela, o Buraco Quente, num sobrado geminado com uma árvore enforcada no quintal e um videogame sempre ligado e vizinhos em quem dava porradas... Outro idiota da Zona Sul. Tinha uns dezessete quando comecei a cair na favela pra comprar fumo... Na mesma época, descobri que meu pai me sapeava quando eu transava com minha namorada, no quarto. Ó, você tem namorada? Como é que você trepa com...? Quando você transa com ela, não tem a sensação de que alguém...? Não ouve, “ó, nior, tamos de olho, manda bala, meu velho”? Como quando o padre me dizia no catecismo, “Deus que tudo vê”... Eu sentia o mesmo, só não sabia que, na verdade... – o puto do meu pai, aquele punheteiro, socando uma atrás da fechadura enquanto eu amordaçava a menina pra que não gritasse... Você não acha que as mulheres gostam de gritar quando estão gozando pra que TODOS saibam? Hein? Você só pode estar brincando. A sua namorada deve fingir que não goza só pra te falar que... Marluce! O quê... Hein, como eu descobri que ele...? Sempre tem um filho da puta espiando outro. Olha aqui, garoto do microfone, você deve saber que isso me fez um EXPERT em fingimento! Eu habitei aquela Casa com aqueles outros animais, articulei tramóias para virar líder, me fiz de bonzinho quando devia, de mau quando achei que o público ia gostar, fui o primeiro a foder uma colega de Casa ao vivo em cadeia nacional... tava dando tudo certo até que perdi a bolada no final para aquela suburbana paranóica, só porque eu não tinha cara de POBRE. Naquela época, cê não lembra, nem era nascido, era o começo do século 21, estava na moda ser pobre, parecer tosco, falar errado... Sabe o que é HYPE? Não? Era uma palavra que se usava muito... era hype ser povão, fingir que tinha samba no pé, escutar rap... Ah, é, outro dia teve um revival... Ó, me desculpe, não me olha com essa cara, hoje em dia não cai bem essas expressões em inglês. É assim que eu aprendi e foda-se. Olha: nunca fiz faculdade, mas sabia que o que não era hype era ser preto e genial como meu mano Sabotage, que foi sabotado pelos tiras... E morreu, quatro tiros na cabeça, ali na Favela do Canão, ó, bem ali, daquele lado, ali onde você está vendo a última antena de TV, mais uma favela que foi para o caralho... Marluce! Fui expulso do colégio porque os gambés me pegaram vendendo umas coisas no pátio... E sabe o que mais? Você pode pesquisar nos arquivos e descobrir. IRINEU DO BIG BROTHER ENCRENCADO COM A LEI... Quando revelei isso numa entrevista, meu Ibope subiu! Fiquei FAMOSO! Ibope? Ibope era um índice pra medir audiência... outra coisa que... Como medem audiência agora? Ah, é, esqueci – todos sabem o que todos vêem hoje... Chegamos lá, né? Todo mundo tendo acesso a todo mundo? Olha, garoto do microfone: NINGUÉM tem acesso a mim, tá me entendendo? Eu não sou isso. Ninguém vai saber o que eu penso quando estou na privada, meu último refúgio... MARLUCE! Quando eu estava na Casa, fazia discursos reclamando por me proibirem de levar livros... Me chamaram de “intelectual”... olha, reporterzinho: tem saída não, não adianta ir contra. Quando vendi minha imagem como “jovem ator rebelde saído do Big Brother”, eles já conheciam toda a minha história. Tinham me escolhido por causa disso mesmo. A minha... Doença... Acha que eu queria aparecer? EU QUERIA ME ESCONDER!, me esconder, só me esconder, só... Ó só, que beleza, daqui dá para ver tudo afundando... Marluce! Olha. Quando eu fui puxar cana, fiquei numa cela onde estavam uns integrantes daquela facção do crime, a Seita Satânica... eles desenhavam estrelas de cinco pontas debaixo da cama, em cada ponta um cigarro aceso, você via a cinza do cigarro se acumulando reta, sem cair. Uns caras que não tomavam drogas – só gostavam de arrancar orelha, vazar o olho, tirar o nariz de um ladrão, beber um sanguinho de vez em quando, pra relaxar. Tem todo tipo na SS, de diretor de banco de investimento a ex-Big Brother – não é boa, essa? Heh. Sete anos de xadrez e aprendi a ficar com o olho aberto sete dias seguidos, especialista em zoológico... Ser um Big Brother virou o sonho da minha vida. Eu só queria estar na Casa. Ser um deles. Deu certo: comprei essa cobertura com o dinheiro que juntei quando me convidavam pra animar bailes de debutante e lançamentos de churrascarias em cidades tipo Cuiabá. E daí, sumi, me isolei com meus quadrinhos e a Bíblia, só investindo no Plano B – eu simplesmente não agüentava mais ver nenhum ser humano... Marluce, a água tá subindo! Esquece os baldes, meu amor, vamos ter que apelar pro... Minha filha não é um TESÃO? A mãe dela morreu – você deve ter pesquisado –, era a Marlene, a paranóica suburbana que ganhou o prêmio de quinhentos mil reais – heh, lembra dessa moeda? Pois a minha jogada foi casar com ela... Hein? Se estou bem? Estou ótimo, apesar do botox que botei estar começando a vazar pro pâncreas, das pernas de silício instaladas darem uma rateada, das córneas de vinil que comprei a prestação, amanhecerem embaçadas, do meu coração de soja transplantado há dois anos ter taquicardia quando eu dou uminha... Pelo menos, minha prótese peniana de titânio funciona melhor do que minha pica na época em que eu comia a Marlene, veja lá o pôster, que gostosa que era... Eu estou ótimo! EU SOU O NOVO HOMEM... Olha, garoto do microfone, vou te falar uma coisa séria: isso aqui não existe, eu e você não existimos, a Marluce não existe. NÃO EXISTE NENHUM REALISMO, entendeu? Ninguém fala desse jeito que eu falo, é tudo inventado. Eu só era um babaca de classe média com uma dor vazia na consciência, que lia quadrinhos, ouvia Sepultura, andava de skate, lutava jiu jitsu e tinha que mostrar pro meu pai, entendeu?, que eu precisava pegar de volta o controle remoto... Olha a ÁGUA – que lindo, como sobe. Ih, aquele helicóptero ali se fodeu... Cara, espia o lugar onde cê trabalhava. E me diz se você não deu um puta rabo de vir pra minha cobertura fazer uma entrevistinha pro teu programelho sobre estrelas cadentes globais...? Desde o tempo em que a Marta Suplicy batizou as Águas Espraiadas com o nome de Jornalista Roberto Marinho, tinha a intuição de que isso ia acontecer. Não dá para fugir, cara. As águas vão lavar tudo – as imagens, e todas essas palavras, essa falação estúpida... Por isso comprei essa cobertura perto da avenida: daqui posso olhar pro bairro onde cresci e assistir ele afundando... Posso ver submergir o Buraco Quente, aquela favela que o Maluf assassinou, quando asfaltou as Espraiadas por cem vezes o custo e enfiou tudo no bolso, mais a grana daqueles horrorosos Cingapuras, os pombais das Marginais... Quem se importa pronde foram aqueles pobres filhos da puta? Nunca foram hype nem trabalharam num filme fingindo ser traficantes. Você não conhece HISTÓRIA? Outro paulistano imbecil que... Parece que todos os jornalistas nasceram ontem. Cê tem que saber das coisas, cara! Ou você vê ou é visto. E aí saca que tudo não passa de uma triste orgia de macacos se masturbando uns pros outros – e só tenta se divertir fodendo os autistas... Olha que maravilha! A GLOBO ESTÁ AFUNDANDO! Queria que os manos da SS vissem isso! Marluce, e o Plano B? Vamos lá, garoto do microfone... Não queria realismo? Então, ou fica aqui, e se afoga, ou vem pro barco comigo e com a minha filha... No barco vai um casal de cada animal... cê vai ver que reality show! Vamos embora para a terra do bom, do justo e do sábio... e dos peixes abissais surdo-mudos... O que cê vai fazer? Vai ficar assistindo a tudo, pô... Você é o idiota que conta a história!


[1] Participante de um extinto programa televisivo, sucesso internacional nos anos 00. Criado por uma produtora holandesa, era levado ao ar no Brasil pela TV Globo. Consistia em confinar cerca de 20 pessoas numa casa monitorada por câmeras de TV. A vergonha alheia, a escassez de idéias e o excesso de exibição de carne nua eram atributos característicos do programa.

27.7.06

12 : Dia dos Namorados

Lost among the subway crowds
I try to catch your eye

Leonard Cohen, “Stories of the street”


– Mas você nunca morou com ninguém?
– Morar com alguém? Essa é boa. Não moro nem comigo mesmo...
Ele não me dá a mínima. O máximo que me concede é sua companhia zanzando pelos escombros deste shopping que havia na Faria Lima, alguma coisa com nome indígena. Zed sopra que gosta de flanar por velhas vitrines.
– Sentir vontade de ter coisas que não poderei jamais ter, Gas Gas.
Ele só me chama de Gas Gas. Jamais se lembra de que tive outros nomes. Jamais se lembra de que já entrou em mim quando eu era outras.
– A verdade é que nunca sinto vontade de ter nada – ele repete.
Eu já senti vontade de tê-lo. Durou umas horas, e meu nome não era Baby Gasoline. Era uma época em que usava a id Salvia Divinorum. Nos conhecemos numa feira. Na Feira da Benedito Calixto, quase na praia. Eu procurava fotos antigas de gente desconhecida para decorar minha sala, tinha pego um retrato de família e ele avisou: “Essa aí já tem dono”. Havia encomendado a foto ao dono do estande, me disse. Não quis me dizer se também colecionava imagens de anônimos, como eu, ou se de fato conhecia aquelas pessoas na foto. Falou o mesmo que agora:
– Vontade de ter o que não poderia jamais, sabe.
Mas, agora, no deserto deste museu, não tenho mais como reengatar essa conversa – ele vai me achar doida.
Se achasse que sou louco, trocaria meu nome – tinha cantado, bêbado, em uma ex-casa.
Não vai acreditar que eu e Salvia somos uma, a mesma. Já tive uma enorme vontade de chegar nele e me declarar Salvia. Mas não posso. Não teria como provar – agora que perdi os royalties sobre minha id. Estou endividada até o pescoço com o Neverland Institute. Literalmente: devo 3 pescoços, meia dúzia de próteses faciais, umas cirurgias plásticas, centenas de tratamentos capilares, um crédito absurdo em fibras musculares de segunda linha e uns cinco ou seis dermoconstrutos. Não é fácil ser mulher hoje em dia.
– O ar é baço, aqui... Não tem ao menos um café nesse antro?
– Acho que na entrada. Olha essas roupas... – rio.
– Não dá pra acreditar que vestiam isso vinte anos atrás.
– Esse texto sugere que as roupas de baixo eram para as consumidoras usarem no Dia dos Namorados... saca o que pode ser isso?
– Parece que antigamente havia um dia do ano em que os namorados se davam presentes. Algo assim.
– E o que eram namorados?
– Suponho que fossem casais temporários, alguma espécie de relação afetiva. Acho que não era exatamente casamento... mas também não era o que se costumava dizer amizade.
– Você aprendeu isso na escola?
– Não. Li uns dos Livros Proibidos...
– Eu também! Mas não consigo lembrar disso...
– Você não lembra nem de onde dormiu ontem!
Levei Zed para o cafofo de Salvia. Essa minha id, naquela época, trabalhava com eletroperversão histoimagética num edifício abandonado da Vila Madalena. Quando o rio subiu, em 2033, derrubou um monte de prédios. Alguns sobreviveram, como aquele da Fradique Coutinho. Cheguei antes de todo mundo, tomei um dos últimos andares para mim e morei lá dois anos, brincando de Salvia. O dinheiro com eletroperversão era bom: podia comprar várias ids. Consegui montar uma arapuca bacana pros caras legais que catava na feira. Mas tinha algo errado em Zed. Ele não parecia alguém recriado. Parecia que tinha caído do nada, nesta Cidade-Olho. Parecia mesmo alguém autêntico – embora negasse.
– Você tem certeza de que as águas não sobem aqui?
– Como posso ter certeza? O que sei é que a última vez em que esse shopping foi inundado tem uns dois, três anos, acho que foi 2053. Saca as marcas das paredes. Mas até que está bem conservado, né?
– É... olha essa loja de música... também tem um display falando de uma promoção para esse tal Dia dos Namorados. Será que foi nesse dia que rolou a Grande Enchente do Tietê?
– Se eu tivesse um Jaeh, via agora. Mas detesto essas coisas que fazem a gente lembrar de tudo muito rápido... eu gosto de esquecer, sabe? Ficar com aquele frio na barriga que dá quando a gente não lembra...
– Heheh... Sei.. Eu tenho a impressão de que tinha um Jaeh implantado, mas acho que precisei tirar... me dava coceira. Tenho umas alergias com biosilício, nunca descolei remédio pra isso...
Tudo o que queria era segurar suas mãos, levá-lo para minha cama de novo, qualquer cama, deixar que me apertasse e me olhasse como se eu fosse única, como na noite em que o levei à casa de Salvia, única e ao mesmo tempo conectada a ele. Mas não sou mais Salvia – e ele nunca vai se apaixonar por mim. Apaixonar-se. Li isso nos Livros Proibidos. Tinha a ver com aquela instituição chamada casamento, considerada antieconômica pelo Estado de Transição [engraçada a expressão – faz uns 30 anos que o Estado é o mesmo...] e punida com a extradição pros Territórios dos Coisos. Por que Zed é o único cara de quem as mãos nunca me escapam, na memória da pele? Não costumo me lembrar dos caras com quem... Ele, pelo visto, também não. Mas se dissesse a ele que Baby Gasoline é Salvia Divinorum...
Tudo o que eu queria era dar um soco na cara dele.
– Você já teve alguém de quem gostasse muito?
– Como assim, ter alguém? Um escravo, um robô, um Coiso?
– Alguém com quem você tivesse... sabe...
– Não sei, não me lembro... te falei, tenho uns problemas de memória.
– Nunca pensou em ler as digitais ou a íris no Neverland?
– Que digitais, que íris, Gas? Não tenho mais nada disso. Até minha arcada dentária é de pseudocálcio. Devo ter sido fuçado nalguma boca-de-porco na África, na Ásia, sei lá. Sinto que não é seguro acessar o Neverland. Não sei bem no que eu trabalhava, antes dos meus mnemoimplantes irem pro saco...
Chegamos no fim de outro corredor, descemos as escadas. O Museu do Consumo Conspícuo está às moscas a esta hora, cinco da tarde. Daqui a pouco vêm as chuvas de fim de dia. E as pessoas ficam tensas. Eu me garanto, na minha barca. E, de algum jeito que não sei por quê – confio em Zed.
– Olha isso!
Ao virarmos a esquina, depois de uma megaloja de moda, no chão à frente de uma delicatessen, o que parecia ser uma pessoa caída.
– Pelas roupas, é um Coiso...
O peito estava aberto. Da mão direita pendia uma ferramenta estranha.
– Talvez tivesse sido um Coiso tentando arrombar uma loja. Deve ter tomado um choque elétrico no peito, caiu e morreu aí mesmo.
– Era uma mulher... com certeza era uma mulher, pela túnica.
– Ela queria arrombar essa delicatessen aí na frente... Mas e se arriscou tanto assim só pra roubar uma cesta de chocolates podre, de vinte anos atrás?
– Talvez quisesse dar de presente pra algum namorado – ironizo, sem deixar de me deter sobre os miasmas e humores que escapavam da carniça fedorenta. O teto do shopping iluminava irrealmente a carcaça, dando a impressão de uma flor a se entreabrir. Moscas zumbiam sobre o tórax trucidado, dali saíam bandos de larvas, escorrendo num líquido grosso. Tudo isso ia e vinha em ondas, como se o corpo vivesse, e até se multiplicasse. O mais louco é que, na outra esquina, um pitviralata fuzilava os olhos pra gente – talvez achasse que fôssemos comer a sua caça. Precisei os olhos de Zed. Ele tinha a mesma íris que na noite com Salvia. Quem sabe as mesmas digitais. Talvez ele mesmo não soubesse que não é mais Zed, e sim outra id largada por algum Zed, desfazendo-se sob o vento e a garoa cítrica. Me pegou nos ombros, me tirou dali, suave.
Enquanto saíamos, o cão caía de boca naquele esquecido corpo.
Na rua, em frente ao shopping morto, Zed me parou. Tinha lágrimas na face. Parecia antigo, uma foto em sépia. Me puxou e me beijou. O cheiro do cadáver ainda ressoava nas narinas, ao mesmo tempo em que sentia que nunca mais queria sair das mãos de Zed. Havia lido algo sobre isso nos Livros Proibidos. Ainda sentia seu gosto na língua quando soltei, sem pensar:
– A gente se vê?

10.7.06

4 : Os cães do curandeiro de Caruaru

Queres quantas hoje? Tudo isso? Olhe. Tu precisa se cuidar, galego. Rapai. Quanto a mim a decisão não é de deixar a boemia, velho. Mas de ela deixar de mim. Tu não. Tu pode desligar algum negócio aí. Vê se não tem algum treco bráite oráite. Por trás do dente. Embaixo do suvaco. No lado de dentro do furico. Óa. Óa só. Ouvisse? Hum. Foi, foi. Andei tomando uns cactos. Tu sabe. Aquela balinha que tu morde o espinho e explode o esprito no céu da boca. Tratamento contra a dor. Essa que vem de um dentro que a gente não sabe de onde vem. Um zumbido nos nervos. E tu não pára quieto. Dançar nu e encoxar priqituim atrás do tanque e quebrar garrafas por tudo quanto é cabeça. Isso nos dias pares. Nos outros é só desespero mesmo. Cem vermelhas, cem azuis. Duzentas hóstias? Ah, pra menina. Rapai, cuidado com as mulheres dessa cidade, galego. Elas têm o veneno mais sublime. Óa! Olha só. Ouvisse o latido? Estranho. Ninguém nesse prédio tem dinheiro pra ter um cachorro não. Mas escute só. Ouve. Ouve. Outra noite. O controle, o teu controle. Tu já procurasse dentro da orelha? Atrás do joelho? Debaixo do freio do pau? No couro cabeludo? Óa! Foi, foi. Então. Escuta essa. Eu tarra bebo e meu amigo Podrinho me deu um cacto diferente desses que eu vendo. Dali tudo me encheu. Fui para casa e me sentei num sofá. A única coisa imóvel na minha frente nos últimos dez anos era minha parede azul, que com a cor de laranja desse céu ficava verde que só a porra. E nessa noite o verde tava lilás. Fiquei ali sentado olhando fixo a multidão de alfinetes pretos esvoaçando feito tanajuras em uma tarde quente de Caruaru. Daí os latidos. Óa, óa: ouvisse agora? Nem? Mas eu dizia. A multidão de alfinetes ia crescendo e tomando formas. Eu vi violinos, eu vi sombras flutuantes. E vi rabos e vi focinhos e plumas resvalando pelos meus pêlos, minha barba, meu cabelo, os fios que saem de meu nariz. Cheiro de mato, de cio e de tormenta. Meu queixo travou, eu me agitava, dei de salivar e respirar rápido. E detrás das cores da minha sala ensolarada eu comecei a ver cachorros por tudo que é lado. Cachorros subiam pelos móveis. Cavavam debaixo do tapete da sala. Saíam da cozinha, do banheiro, do quarto. Cachorros me lambiam e me cheiravam o cu e os deles entre si. Os cachorros latiam e mijavam nos pés das cadeiras. Os cachorros arrancaram a cabeça do meu Mojo e vieram me trazer os pedaços nos pés. Os cachorros comeram todas as comidas da minha geladeira e cagaram nos lençóis da minha cama, os cachorros chupavam o próprio pau e lambiam a própria buceta, os cachorros comeram minhas roupas brancas de médico. Os cachorros latiam e bufavam e peidavam e suavam. Os cachorros fodiam pela casa e os cachorros se esfregavam em minhas pernas ou então deitavam em cima dos meus pés pra dormir... os cachorros danados me aperrearam a noite toda. No dia seguinte comprei um pacote de ração canina. Vai que. É 500. Cospe aqui, Zed. Eita. Foi pra conta. Cuspe bom pra porra desse galego! Óa, óa. Preste atenção. Ouvisse?

14.6.06

20 : O fumacê do Profeta Elias

Toca a campainha.
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Vou até a porta, receoso. Não esperava por uma coisa dessas... acho que é a primeira vez que ouço a campainha tocar, desde que me mudei para este apartamento. O tempo todo ouço coisas do lado de fora de seu corredor, como portas batendo, ferros batendo, marteladas, latidos, vozes que me chamam para fora. Mas nunca atendo ao chamado, jamais abro a porta. Uma de minhas missões é cuidar de Hannah.
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Contudo não posso evitar xeretar o corredor pelo olho mágico. E nada – a não ser, em grande angular, o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.
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– Estranho, Hannah... não era ninguém. Talvez fosse um desses garotos que tocam a campainha e saem correndo. Bom, vamos lá, deixa eu continuar a leitura.
– Põe um som.
– Scarlatti?
– Hum-hum. Você sabe mesmo agradar uma mulher, Fabrizio...
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– O cérebro dos coelhos é menor – disse Jason.
– Deve ser – disse Ruth. – Seja como for, ele adorava os gatos e tentava fazer tudo o que eles faziam. Até aprendeu a usar a caixa de areia deles. Arrancou tufos de pêlo do peito e fez com eles um ninho atrás do sofá; queria que os gatinhos ficassem lá. Mas eles nunca iam. O fim dele, ou quase, chegou no dia em que ele tentou brincar de esconde-esconde com um pastor alemão que era de uma senhora que veio fazer uma visita. Sabe, o coelho tinha aprendido uma brincadeira com os gatos: ele se escondia atrás do sofá e aí saía de lá correndo, correndo em círculos muito depressa, e todo mundo tentava pegá-lo, mas em geral não conseguiam, e aí ele voltava a se esconder atrás do sofá, onde estava entendendo que ninguém devia segui-lo. Mas o cachorro não conhecia as regras do jogo e quando o coelho se escondeu atrás do sofá, foi atrás dele e lhe deu uma tremenda dentada no rabo.

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A campainha toca outra vez. Vou ver. Em grande angular, o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.
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– Quem será, agora?
– E eu sei? Eu só leio o futuro às cinco da tarde. Ainda são quatro e cinco.
– Mas ninguém jamais vem nos visitar. E a Divisão nunca disse o que fazer se alguém viesse.
– Espia no olho mágico, gênio.
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Um sujeito metido numa túnica branca, barba amarelada, olhos tensos, ninando um gato no colo, mostra os dentes.
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– Nunca vi mais gordo.
– Pega o seu laser, valentão.
– É mesmo...
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Hannah sempre sabe me desarmar.
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Mentalizo o revólver enquanto olho para minha Psico 5. Em segundos, um bastão metálico se materializa sobre minha mesa de deliverância. Uma legítima Parabellum .11. Emite um feixe de laser que cortaria até um turbocóptero ao meio. Pode alcançar uma envergadura de dois metros e pesa menos que uma folha de papel. Encaixo na mão direita. Um simples toque e o barbudo vai buscar a cabeça dele no meu capacho.
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Meus superiores na Divisão me haviam alertado da possibilidade de outro Agente vir me procurar. Não pensei que viessem logo, porém. Faz quase um ano que estou aqui e nunca saí, nunca ninguém veio, ninguém se comunicou. Me vem um arrepio quando passo o cartão na maçaneta e abro a porta e me dou conta: passei um ano sem ouvir uma voz humana.
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– Quem é você?
– Quem eu sou? Eu é que pergunto: quem, ou o quê, você é? Aliás, nem é isso o que eu quero saber. O que eu quero saber é onde descolo umas anfetas nessa cidade.
– Umas o quê?
– Umas anfetaminas, dammit. É impossível viver nesse mundo aquático sem isso. Essa cidade é úmida, pegajosa, varia de um frio glacial pra um forno crematório, ipês-roxos floridos pra cactos cadavéricos... Hummm... o que é isso que você tem aí na mão, velhão? Uma parabelo? É legítima? Adoro armas antigas... sabe, tinha um Colt 44 feito em 1860, durante a Guerra da Secessão, mas vendi pra pagar umas dívidas com meu dealer... Watch out!
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E jogou o gato em cima de mim. Assustado, segurei o bichano pelos sovacos. Quando percebi, o barbudo apontava uma arma velha pro meu peito.
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–... mas depois consegui reaver. – Tranqüilo, ele me mostra, todo orgulhoso, balançante, o pesado revólver. O gato se arrepia todo no meu colo. Em algum lugar da minha mente, pressinto Hannah rindo da minha cara, a maldita. Rangendo os dentes, o barbudo recoloca a arma por baixo da túnica. – Eu achava que os Agentes da Cidade-Olho fossem mais espertos. Mas você parece estar mais enferrujado que esse Colt. Não vai me convidar para entrar?
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– Ei, chefe, me tira daqui! Esse cara está se tremendo todo... vai que ele me derruba naquele aquário! Aquele peixe é grande demais para eu comer... – fala o... o gato. Ah, não. Um tubarão que conversa comigo por telepatia eu até engulo, mas um gato falante? Confuso, decido fechar a porta atrás do barbudo.
– Entre...
– Me deixe fazer as apresentações. – Pega de volta o gato. – Este aqui é o Fred Astaire. Nosso colega Mark teve de viajar e me pediu pra que eu cuidasse do bichano.
– Mark Sandman? Viajou? Pra onde? – balbucio, descontrolado. – Mas e você, quem é?
– Sou o Agente Elias – sorri. Tem um olhar profundo, parece flutuar por trás de mim. – Mas pode me chamar de Profeta: é meu nome de guerra na Divisão.
– Se é um profeta, então realmente somos colegas... – brinco. Ele tem um aperto de mão muito forte. Mas a mão treme como a de um viciado em speed. Ele range uma mandíbula sobre a outra.
– Um café?
– Claro.
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Vou à cozinha. Volto-me, hesitante.
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– Olha, me desculpe o mau jeito. É que faz tempo que não recebo visitas... – Pressinto a irritação de Hannah, por sacar que estamos fora do alcance de sua visão. E então me vem uma onda de alegria, de loquacidade. – Mas olha: eu me recuso a fazer café no estilo yankee, aquela água de batata que vocês bebem. Já que está na minha casa, vai tomar um café de paulista. Escuta, Elias, por falar nisso – enquanto ligava a cafeteira, tentava recobrar o domínio da situação: afinal, estava em minha casa –, que história é essa de anfetaminas? A Divisão deixa que os Agentes usem drogas dessa maneira? Desculpe tocar no assunto, mas você parece um pouco afetado...
– O mau uso das drogas não é uma doença, meu amigo – sorri benevolente o Profeta, puxando uma cadeira enquanto joga suavemente Fred Astaire ao chão. Puxa de dentro da túnica, que deveria ter milhares de bolsos ocultos, um cigarrinho e um fósforo. – É uma decisão. É como a decisão de parar na frente de um carro em movimento. Você não chamaria isso de doença; mas sim, um erro de julgamento.
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Por trás da névoa dourada que escapa da boca do Agente Elias, noto que o café ficou pronto. Súbito, percebo estar vestindo um pijama. O que me dá uma noção de irrealidade.
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– Mas para o que você usa isso? É vício? É para fugir da realidade? Nossa realidade, trabalhando para a Divisão, já não parece escapista o suficiente?
– Realidade, Fabrizio – ele leva a xícara aos lábios, mas, antes de beber, aspira densamente o aroma do café. Fecha os olhos –, humm – e sorve a bebida devagar, de uma só vez. Deposita a xícara de café na mesa e estende a mão sobre a minha. Sorri de novo aquele sorriso bondoso, mas que ao mesmo tempo parece saber algo terrível sobre mim, que eu mesmo não o sei. – Thank you very much. Não tomo um café bom assim desde que minha segunda mulher faleceu. – Faz uma pausa. – O que você dizia mesmo?
– Eu não dizia nada. Você é quem estava falando sobre realidade...
– Ah, sim, a realidade. Realidade, eu acho, é aquilo que, quando você pára de acreditar, continua existindo, mesmo assim. Ela se recusa a ir embora, quer você acredite, quer não. – Fred Astaire, que estava passeando pela cozinha, irrompe no colo do Profeta. – A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se você controla o sentido das palavras, controla as pessoas – que precisam usar as palavras. Você diz que eu estou afetado. Mas quando cheguei em sua casa, pensei que tinha errado de endereço e fiquei zanzando pelo corredor. Pude reparar que você tem o costume de falar sozinho. Se eu fosse uma pessoa preconceituosa, diria que ficou tanto tempo trancado aqui que já está ficando maluco.
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Sorri.
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– Pode parecer loucura, mesmo. Mas eu estava falando com a Hannah...
– Quem?
– O tubarão. É uma agente transmorfo, uma das maravilhas da Divisão, não sabia? Nós trabalhamos em conjunto para fazer as predições. Hannah fala comigo por telepatia. Juntos, somos o Oráculo.
– O único oráculo em que acredito é o I-Ching – Virou sua xícara de uma vez. – Sabe, antigamente a maioria dos meus conterrâneos tinham basicamente duas crenças: uma era que Deus estava morto e a outra é que realmente existiam diferenças entre as marcas de cigarros. Felizmente os norte-americanos já não estão mais no centro do Império. Ainda bem que vocês não têm esse tipo de preconceitos aqui no Brasil...
– Temos outros...
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Ele range os dentes.
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– Tem mais café? – Levanto-me para pegar o bule enquanto reconheço o aroma da fumaça. Skunk. Poxa, os Agentes andam pegando pesado. Elias pisca o olho, enquanto o sirvo: – Não, Fabrizio, olha, eu estava brincando. Conheço o trabalho de vocês... o Mark falou muito da dupla. Por isso vim aqui... – Adotou um tom de confidência. – Sabe, um de nossos Agentes sumiu, não sei se ficou sabendo. É ainda sigiloso...
– Quem?
– Zed Stein... Desapareceu completamente.
– Morto?
– Creio que não. Encontramos pistas recentes dele em alguns lugares... Londres, Istambul, Asunción, Hong Kong. O problema é que ele estava envolvido em uma investigação supersecreta – nem eu sei o que é –, e Mark está furioso com o sumiço dele. Aí, me colocou na caça. É aí que vocês entram. Preciso de uma predição em Zed para... para um dia, mais ou menos. Consegue? Hei, quero mais um café.
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Levanto-me para fazer mais, enquanto Elias solta outras baforadas.
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– Não tomo um café bom assim desde que... desde que a minha segunda ou terceira mulher se juntou aos Panteras Negras, acho. Aquela vadia. – Puxou forte a fumaça; Fred Astaire elevou sua patinha para o ar, na esperança de apanhar um dos círculos do fumo amarelado. – Mas, sabe, até que ela me fez um bem. Naquela época, eu era um burguês, como você, tinha minha casa, meu cachorro, meu Buick novo. A mulher me deu um pé na bunda tão forte que acabei indo morar na rua!... Isso foi ótimo: comecei a perceber que não existe isso de uma pessoa ser um vendedor, um cineasta, um encanador... somos todos, essencialmente, patifes. Você é um patife, Fabrizio? – Soprou a fumaça. – Mas por que estou falando disso? Desculpe, divago. Essa California Indica é mesmo muito boa. Comprei ali na Praça da República, acredita? Não quer mesmo um pega?
– Desculpe, Elias, mas não posso. Você sabe, meu trabalho está diretamente conectado com a Mnemomáquina – qualquer transtorno em minha memória pode desvirtuar minhas predições. Além disso, lembro-me vagamente de que fumei maconha quando era jovem, tinha uns 20 anos, e me deu uma aterrorizante vontade de morrer... quase tentei me matar. Estava no topo de um prédio, em uma festa, e fiquei sinceramente tentado a me jogar lá embaixo. Me deu paranóia, creio.
– Paranóia? Que engraçado. Sabe, colega, eu já tentei me matar, uma vez. Era garoto e sonhei que um cavalo tentava pular por sobre a minha casa; mas não conseguia, caía no chão e morria. Então, escrevi uma carta para minha mãe, dizendo que aquele cavalo simbolizava a minha vida, que não conseguia sair do chão. Quando vi, estava tomando várias pílulas de soníferos dela... aí, chamei ajuda pelo telefone. Isso me levou a crer que os suicidas na verdade não realizam o que estão fazendo quando fazem a besteira. Acho que nem Hemingway nem Kurt Cobain nem Hunter Thompson realmente não tinham a ciência de que iam dar um tiro na própria boca. Ao contrário do Burroughs, que praticou isso a vida inteira, aquele velho boqueteador. É mais ou menos como a morte da Gertrude Stein. Ela tinha operado um câncer, e ninguém sabia, antes da cirurgia, se o câncer realmente era removível. Então ela acordou, logo após a cirurgia, e perguntou para os médicos: Qual é a resposta? Ninguém disse uma palavra. Aí ela soltou: Qual é a pergunta? E morreu imediatamente. Acho que é isso: se ela não tivesse perguntado, não teria morrido, assim como Hemingway. Como num sonho, você imagina que sua vida acabou. Mas sempre tem um último segundo em que pode pedir ajuda, mover o rifle para o outro lado, ou simplesmente calar a boca. Foi o que fiz, e é por isso que ainda estou aqui.
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Não sei o que dizer. Fico só observando a barba falha de Elias, da mesma cor dos círculos de skunk, e tentando juntar as peças. Ele me espia com seus olhos fundos e oblíquos, solta uma risadinha e se levanta.
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– Bom, Fabro my darling, vou andando. Não se esqueça da predição sobre Zed Stein. Precisamos encontrar esse doidão antes que faça merda ou acabe soltando alguma informação... e aí, você sabe, teremos uma DR...
– O que é isso? Discussão de relacionamento? Isso eu já tenho bastante com o meu tubarão...
– Não, amador! – Ele riu. – Uma Delenda Ratio. Desligar seus circuitos racionais. Em suma, fechar seu corpo físico, sintetizá-lo em uma sopa de silício e torná-lo uma mera memória líquida para ser acessada por um HD da Divisão, ou como um morto-vivo para ser vampirizado e sorvido em colheiradas pela Psico5 de outro Agente... Algo muito triste. Mas você vai me ajudar a não precisar fazer isso com o velho Zed. Se você quiser me encontrar, é só mandar um recado através da sua Psico5. Vou ficar aqui na Cidade-Olho mais um tempo. Preciso dar um jeito nessa horrível dor de cabeça. Ouvi dizer que tem um traficante de anfetaminas, um tal de Doutor Apocalipse, que se finge de dentista, ou de proctologista. Me passe o reporte assim que puder, ok? Muito obrigado pelo café.
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Elias vai até o aquário e faz uma elegante mesura para Hannah. Ela dá um pique de lado a outro do tanque. Deve ter ficado com tesão, safada. O gato sobe no ombro do Profeta, que se despede com uma saudação budista.
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– Namaste.
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Fecho a porta e me volto para minha colega de trabalho. Nossa, já são quase cinco horas.
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– Vamos lá, Hannah... o Momento...
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Sento-me à minha cadeira e fixo o olhar no olhar do tubarão. O sol cai ao meu nordeste e invade meu largo apartamento de reflexos amarelos, alaranjados, lilales – e meus olhos tunem no Rubi.
Porém, o que vejo nas malhas translúcidas do corpo do grande peixe, em esgares e estrias entre negro e dourado, é um sujeito que lembra o ator Rutger Hauer, a me encarar, em grande angular. Não faz sentido. Alguma projeção da Psico5?
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O Momento se foi. O Rubi se esgarçou até se tornar a fuligem que banha as águas do tanque de Hannah.
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E então, como diziam antigamente, caiu a ficha.
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O Agente Elias é o autor das linhas que eu lia para Hannah.
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Philip K Dick.
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A voz do tubarão surge em minha mente.
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– Só agora percebeu isso, gênio? Está tão interessado em alta literatura que nem se dá ao trabalho de ver o retrato dos autores na orelha dos livros... eu percebi que era ele assim que entrou.
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Toca a campainha. Algo foi revelado, porém não compreendo.
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Vou até a porta, receoso.
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Ainda meio parvo, apóio minha testa na porta. Então quer dizer que K Dick está lá embaixo, em algum carro-barco, doidão de skunk, rindo de mim... ando mesmo enferrujado, como ele disse.
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Mas, no olho mágico, em grande angular, somente o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.
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Giro as chaves na fechadura e abro a porta com raiva. No chão, no capacho, a sombra negra de um gato.
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Fred Astaire.
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– Está chovendo muito lá fora. O Elias disse que eu posso dar um tempo por aqui...
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Fecho a porta, ainda sem acreditar. O bicho passa entre minhas pernas e se posta na sala, olhando admirado para Hannah. Algo me diz que minha vida com esses dois bichos falantes vai ficar meio complicada.
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– Fique tranqüilo, Fred... a Hannah só come carne humana...

2.5.06

3 : Baby Gasoline and other songs

Sou a única versão dos fatos, você vai ter que acreditar em mim. Assim, creia: meu nome é Helena e eu adoro cheiro de gasolina. OK, você pode achar estranho esse início – desculpe; não sei me identificar como Helena H., 25, fotógrafa e garota-propaganda [você acredita nas legendas das fotos dos diários? acredita em noticiários? que aquelas coisas realmente aconteceram? Ou tudo não seria uma conspiração para anularmos nossos dias em detrimento de naves que caem no Paquistão, a última besteira proferida pelo presidente da corporação ou o novo holodrama que vai mudar a sua vida?], e sou uma mulher que não gosta de escrever usando esses handrands, sou estabanada, vivo quebrando as unhas nos controles; por isso escrevo à mão, e dentro da minha banheira, de preferência. Sim, estudei caligrafia, essa coisa arcaica, na época em que tatuei as rosas que decoravam todo o lado esquerdo de Salvia Divinorum... Não, esse início não está mesmo bom, mas estou tão nervosa – é a primeira vez que você olha para mim, seus olhos se apertando a cada letra dessa caligrafia flutuante como água, minha linguagem, buscando capturar você de corpo todo; e não compreendendo, talvez, que raios vim fazer na sua vida, quem sou, o que quero. Tudo o que eu posso dizer no momento é que meu nome é Helena H, que sou fotógrafa e que os pêlos da minha nuca se agitam quando sinto o cheiro de gasolina no ar, e que foi por isso que resolvi te escrever. Gasolina hoje que é tão cara quanto o perfume mais impossível. Se fosse antigamente, talvez quisesse só morrer e me mataria de algum modo idiota, já pensei em me afogar durante as tormentas de verão, quando os azaratones sobem pelos postes e pelos antigos prédios do século dezoito comendo os passantes vivos; mas pensava que em vez de mergulhar numa boca de lobo poderia é cair na boca de um azaratón então preferi virar outra coisa – outras coisas: ser muitas diminui qualquer solidão. Minha mãe, Anjelika Zapata, costumava contar as histórias do Grande Incêndio dos RGs que rolou lá faz quase quinze anos, eu deveria ter uns dez, quando as cirurgias plásticas e as metamorfoses orgânicas ficaram tão baratas quanto os passaportes no câmbio negro. Nascia a Era das Personalidades Intercambiantes, foi assim que a mídia registrou o fato – entanto, logo os fatos começaram a se dissipar pois os jornalistas também viciaram na coisa e passaram a assinar matérias com nomes cada vez mais diferentes e aí ninguém mais acreditava em nada do que lia; tinha sempre um novo impostor contando novas mentiras corporativas sobre política, futebol, comportamento, economia, cultura... Sim, eu li os Livros Proibidos... Você sabe bem disso, não consigo me esconder de você. Hoje, fico aqui falando com você mas sei que no fundo você sou eu – e isso é o que mais me irrita: mesmo com a possibilidade de sermos outros, continuamos falando somente para nós mesmos; como faziam os blogueiros do começo do século, máscaras em frente ao espelho, ao infinito... Preciso de uma bebida. Antes que eu invada um posto e peça pra me enfiarem gasolina azul nas veias. Foda. Ser várias não é pra qualquer uma.

17.4.06

22 : No Vale de Zuma

Deus é noise é noise é noise. Barulho preto, ruído branco, papo reto, pau a pau. Os biciclopes, as dildodeidades, os homocangurus, meus irmãos em falta de armas, levantem-se. Tem que ter cor, tem que ter coragem, porque quem tem cor, age. Eu sou a soma de todas. Ou a ausência de nenhuma. A lua senão reflexo é. Anões sem braços – os bibelomilos –, as sereias gostosíssimas e tortas chamadas supermancas, e os tecnocentauros, possantes cadeirantes sem mais dinheiro pra comprar óleo para suas engrenagens. Aqui no vale da Zuma todos são zumbis a buscar a lua cheia para romper o plexo solar com a lâmina lavrada no batuque. Caçam sua passagem em Zuma, o vale do último gesto. Aqui ninguém mais agüenta a hora morta do mundo escuro. As gurias azuis com lixa na buceta, os homens-catracas descartados pelas últimas companhias de transportes coletivos, as anciãs-esteiras despedidas dos obsoletos supermercados. Aqui, agora, se pacta a autosabotagem, a vingança mútua, o rito das mônadas que não deram certo, a brodagem no vacilo – tudo na crocodilagem genérica. Sob o noise o noise o noise dos tambores unvulados dos Vovôs Coisos. Os que ficaram à margem, roendo o próprio osso. Meus irmãos em lapsos de DNA, os inventos que ninguém mais quis, nascidos em baias, por trás de vitrais, dentro de tubos de ensaio, a gênese ali no íntimo do asséptico de cada laboratório ou boca-de-porco genética do Estado da Transição. Meus irmãos, as mulheres lacraias, os homens aquosos, as mademoiselles mengele – com um implante neural no rabo, falam diversas línguas com a bunda. Um tesouro de genes recessivos, uma barragem que não se sabe fluxo nem nexo. Prontos para o meu veneno. Sim, foram dilapidados de credo – mas não de medo. Medo não tem segredo. Única força ganha na rapinagem. A crocodilagem é geral entre irmãos que não se reconhecem o sangue. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O vale do último gesto, berço da minha experiência. Campo de dispersão de energia, fuleiragem sem folia, a dança das carcaças ensaia seus passos na clareira aberta por meteoros. Lepra, varíola, aids, câncer e fogo selvagem. Uma usina de extertores. Zuma. Ouve-se por quilômetros o roar dos Coisos que se suicidam. É noise é noise é noise. Tudo aqui nasce sem longitude nem latitude. Um ímã de nada. Um casal de cada ímpar fode-se e se crava a lâmina no peito. Um do outro, zero a zero. Amor, enfim essa arca inversa. Enquanto se fodem e se fodem, eu preparo o difusor da Palavra. Um nome pra droga como outro qualquer. Um grave formado por batidas de crânios contra peles de ex-humanos. Zuma é o vale do último gesto. O que cria o homem. O que cria um novo homem. E é esse gorila albino que vem lhes trazer o conforto. Serei vosso Messias, vós que perdestes o sangue. Que nem pensariam em honra. Aqui não há tempo para árvores secas ou dramas de falas. Onomatopéia aqui é luxo. Mesmo os cegos escoam luz pelos olhos. Quatro ruas levam ao círculo onde se recolhe o sangue dos mártires de laboratório. Aos poucos, forma-se um lago nos Quatro Cantos de Zuma aqui onde era antes uma encosto do Morro da Conceição, perto do antigo Alto Zé do Pinho. Aqui em Recífilis. Um poço suga a doença e a leva para o mar. É a crença. É para lá que desço, carregando minha mochila de sacanagens. Não prender a passagem, essa a rima. É noise é noise é noise. Há cinco anos eles aqui chegam pra morrer. Mas de hoje em diante o sangue correrá de volta a suas veias. O homem só se conhece na destruição. Verto o veneno sagrado na vala de todos os sangues. A Palavra chegará aos vossos corações, mas falará em um dialeto que desconheço. Não há tradutor para o medo. Noise é noise é noise. Cascatas de ruído branco, a cor da coragem. Os Coisos se levantarão ás cinco e meia da madrugada. Uma única estrela sobre as escarpas das quatro montanhas que velam o Vale de Zuma. O rio subterrâneo que flui da lua para o mar. A Palavra se ligará em todos os fluxos, lava gelada. Meu trabalho é lento e continuado, não tem descanso. Tem que ter cor, porque tem que ter coragem. O raio da prata sobre esses subumanos de lata. O poço reflete rubros meus olhos, a lua. Uma nuvem. Mergulho. Logo caminharei sobre as águas. Butthole Kongo. Um mensageiro. Ouço as novas vozes dos Coisos, meus filhos. E sumo.

4.4.06

21 : Como amar uma soldada judia em 2027

Rachel entra em casa silenciosa. Ela pensa que não. Mas eu sempre acordo quando minha mulher chega. Eu finjo. Fingir é nosso método, é o que nos une sob mesmo e outro uniforme. São seis da manhã. Ainda escuro. Quente já. Passei a noite toda escrevendo. Imaginando-a na sentinela, meus pensamentos perseguindo os anéis da fumaça do seu vigésimo cigarro. A Uzi feito um cão sobre seus pés dormentes no frio dos coturnos, o metro por metro que lhe adelgaça e espessa os músculos, a janela que é penteadeira para a sua vaidade insular – as rajadas, a música da caixinha em que ela, bailarina, ensaiaria seus passos de ganso. Esta noite passei escrevendo poemas sobre meu deus, meu paraíso, meu inferno, sobre a ponte que separa os dois abismos e os túneis de Rachel. Nós indissociáveis de minhas fibras. Eu sinto o odor de seu uniforme e a ouço riscar os fósforos para o penúltimo cigarro do dia – sempre fuma um antes do café, e outro antes de dormir, pouco antes de sua língua nitotinada vir brincar comigo. Primeiro mandamento: escova mil vezes os ruivos cabelos de tua amada tão logo ela entre em casa. Poemas sobre o muro que nos habita, sobre os cabelos que crescem dentro do coração e sobre o cheiro forte que as dobras judias de Rachel deixam em minhas digitais turvando-me os olhos sobre os caracteres que desenho de trás para a frente, de baixo para cima, sempre para cima – minha escrita ascende aos céus incorporando-se ao fumo do meu haxixe. E sinto as solas dos coturnos que avançam mornos e sujos sobre meu peito, marcando-me com chicletes, cigarros e os mijos das cascavéis da tríplice fronteira. Faz tempo que não chove nessa maldita cidade. Aqui só bombas. E o pior é que gosto disso. Segundo mandamento: conhece a densidade, o aroma e a cor da graxa dos sapatos da tua mulher como sabes da sombra de teus líquidos mais interiores. Escuto Rachel ligar o filtro de água, escuto as bolhas de ar em seu copo, escuto a água descendo por sua garganta – bebemos a mesma água já faz uns anos. Isso não pode continuar. Em breve, minha prima e amada Rachel vai perder seu emprego por mim, eu, o poeta barbudo oculto debaixo de sua cama, aquele que só vive à noite. O nariz de minha prima feito uma linha do horizonte na miragem do deserto de Hebron, deitado parece uma montanha raquítica do Sinai. Quando a vi a primeira vez, Khaled Al-Zahhari havia me mandado passar um recado para os nossos em Haram el-Sharif. Mais uma ação de rotina. Ela fazia ronda perto de uma delegacia que havíamos explodido duas semanas antes. Seus dedos se alongavam no fuzil e as mesmas nuvens que haviam deleitado os profetas cambiavam de cor lá no interior de suas pupilas enquanto ela me fixava o olhar – ou seria o haxixe que meu amigo Sah Men-Ezz tinha me dado faria efeito demais? Terceiro mandamento: mantém tão brilhantes as fivelas do uniforme da tua amada quanto as lâminas em que afias tua vingança. Claro que não posso escapar da minha sina - do meu pau que demarca cada vez mais latifúndios nessa selva de paredes e línguas arranhadas. Chupões no pescoço, coceiras nas virilhas, mordidas no dorso da mão denunciam os outros quintais por que me aventurei: Rachel somente vê e me diz, grave, que dez dos nossos foram abatidos hoje num bairro qualquer da sagrada cidade. As outras são ninharias. Aqui se morre na mesma xícara de café, minha mulher bem sabe disso - ela me solta pra ter-me cada vez mais preso. Quarto mandamento: foder de abismo em abismo é tua salvação diária – mas lembra-te, os três abismos da mulher amada é que elevarão à glória de teu deus, um após o outro, até, trinta e três vezes três, chegarás ao conhecimento do centésimo nome de Deus. Rachel tira devagar suas roupas pesadas do pó amarelado da terra por que brigamos há centenas de anos e eu me viro na cama e abro os olhos e contemplo seus seios epicamente esféricos e me lembro no ato da pizza que fiz para ela e que agora repousa resfriadamente kasher dentro do forno de microondas. E sei então que vou ter uma comoção porque Rachel vai olhar para mim e fazer aquele sorriso por saber que cozinhei para ela e vai se voltar na direção da cozinha e eu verei suas costas magras se aproximarem, gêmeas carnes exatas como os minaretes de uma mesquita de Sarajevo, seu ventre em breve um domo dourado, e estremecerei, por me lembrar do que faremos - e por me lembrar do que faremos em seguida. Me lembrar de para o que o Fazedor nos fez. Nos comer como cães. Por todo o dia e meu cansaço e os tiroteios dez andares abaixo. Quebrar todas as correntes para chegar perto dela. Tantos cadernos que rabisquei para me manter pensando só em Rachel, e uma outra anotação faz com que o Fazedor leve minha face para o azul de nosso paraíso – somente tento ser feliz, e outro sorriso falso esboço, ah, Allah, como sei, como sinto que só o Fazedor pode fazer de mim alguém feliz, mas de vez em quando nos mordemos como cães, e nos comemos como cães. Quinto mandamento: alimenta tua mulher como uma ave a seus pássaros, como um inimigo dissolve rancor sobre as raízes das árvores secas dos teus antepassados. Qual de nossos profetas antevirá primeiro nosso fim? Os ruídos que ela agora faz na cozinha, o tridente e a lâmina, azeitadas pelo meu óleo, se batendo no meu leite, no meu trigo, nos frutos vermelhos do meu corpo – sua fome sobre minha terra nunca termina. E o fogo em meu kiff ilumina o quarto se refletindo como um fantasma amarelado no dorso da Uzi que ela abandona ao lado da bolsa onde guarda o batom, os poemas que lhe escrevo, o pouco dinheiro que nos resta, as ordens que tivemos, um lenço, um cartão postal da Sérvia, uma bala de revólver prateada com nossos nomes, um player de música, um plástico que envolve frutas secas, sua cartela de anticoncepcionais. Esse quarto está caindo aos pedaços. Nós não estamos muito melhor. Mas pelo menos somos nós mesmos que acionaremos o botão vermelho da firma de demolição. Sexto mandamento: amarás os pés inchados da tua mulher quer eles estejam acima ou abaixo de ti. E que tuas risadas lhe transbordem o cenho, lhe transtornem o senso. Eu dizia a ela que era uma judia falsa. Que descendia de ciganas judias sérvias há centenas de anos – seu porte não poderia jamais esconder. E os mosquitos comiam meus braços - os pernilongos nunca acreditam se você diz que é sangue ruim. E nós somos um povo do deserto. Nós gostamos do terror. Nada do que é humano pode nos ser indiferente. Prezamos a deserção solar, a comunhão com o fogo. Dizíamos isso antes dos romanos, e pouco depois dos babilônicos, e continuamos a repetir o mesmo, através dos séculos. Incendiar templos está em nosso sangue, tão logo criamos nossos deuses com frutas secas e miragens. Sétimo mandamento: prezai o vidro moído na salada de frutas. Rachel comia a pizza de mussarela e manjericão com o olhar tremulando na luz do meu kiff, por trás da névoa esverdeada, a corrente prateada com sua identificação dupla pendendo do pescoço, cada lado para um deus, cada aréola de seus pequenos seios um diverso planeta. E me lembrei de que ela estava grávida. Que nome daríamos para o filho? Oitavo mandamento: deixar que tua mulher te penetre com ácido e açúcar, até que tua carne rija a leve para dentro de si mesma. O cheiro da comida me lembrou que estava vivo – mas o cheiro do suor de Rachel me lembrou de como seria minha morte. Teríamos somente mais cinco horas pela frente, talvez, nós três. A última refeição seria este nosso fatiado e fatigado café da manhã, com o café que ela agora preparava, o café turco que tanto gostamos de beber antes de nos enfiar nesses lençóis enroscados como duas cascavéis, até trocarmos um de pele com outro, nossas línguas brigando e comunicando nosso fim e nosso começo. Viver longe, viver uma vida além de qualquer Messias, de qualquer Profeta ou Fazedor qualquer, um inferno nosso particular, nossos nomes na história pobre de três tribos ridículas. Nono mandamento: tudo o que amas destrói, destrói tudo para amares o nada que seja – e te lembras disso quando dançares na sala com tua mulher, a cada passo, a cada tropeço. As bombas de antraz estavam preparadas já antes do café, ali em algumas mochilas ocultas sob a cama nossa de toda manhã. Em duas horas, Hossein e David deixariam na garagem a van que nos levaria ao reservatório de água dessa cidade seca. Apago o kiff e penso que em breve não mais existirão mentiras de Jerusalém. Em breve só existirão Rachel Pillstein e Hakeem Husam al Dim... e somente os muros, os minaretes, os arames farpados, as ruas estreitas, o ar espesso e turvo de sangue. Massageio os pés de minha mulher, os aproximo de meu ventre, de minhas faces, abro minhas narinas para deixar entrar em meu corpo o cansaço que sua caminhada exala. Décimo mandamento: concordarás com tua amada no instante em que ambos forem anjos. Bebemos nosso café. Acordamos para o que há por vir... mas antes, observando atento seus maravilhosos dentes, nuvens de leite sobre mim, não posso deixar de notar que Rachel tem covinhas nos cantos dos lábios quando sorri.